Choke – Resenha de ‘No Sufoco’
A segunda adaptação para o cinema de Chuck Palahniuk não vai te engasgar e vai, até que desce redondo

Apesar do que aponta o poster, você definitivamente não vai se engasgar com as garotas aqui mostradas
Se tem uma coisa que Chuck Palahniuk faz melhor que qualquer outro autor de ficção atualmente é construir personagens constrangedoramente perturbados. Tyler Durden, o alter-ego de um simples corretor de imóveis em Clube da Luta, fica na poeira perto de Vitor Mancini.
Nosso anti-herói em Choke – No Sufoco é um viciado em sexo. Um doente que ainda por cima dá golpes, extorquindo dinheiro de suas vitimas através da conquista de seu amor incondicional. Para isso ele apenas se engasga propositalmente, deixando suas vitimas na posição de realizar o ato heróico que sempre sonharam. Será para sempre seu troféu.
A versão para o cinema de No Sufoco é a segunda adaptação de um livro de Palahniuk. Estreou sem grande entusiasmo no festival de Sundance, em Sydney no ano passado, mas não se engane!
A bizarra história de Mancini, que eventualmente descobrirá ser um meio-clone de Jesus (long story short) se desenrola sutilmente no livro. No filme nem tanto, mas o ritmo rápido e cheio de humor negro salva o enredo e te mantém atento, entre curtas ereções provocadas pelas mulheres sujas e picantes que Vitor encontra pelo caminho.
Ele é quase um Bukowski – um homem imensamente auto-destrutivo que se relaciona com mulheres ainda mais baixas e sujas que ele. Sam Rockwell se destaca no papel do protagonista, com caras e bocas que emulam o jeitão malandro e dissimulado do garanhão. Seu jeito durão apesar da aparência frágil (lembrou de Clube da Luta?) nos deixa sempre na dúvida sobre quem é realmente aquele sujeito decadente.
Apesar do filme de Clark Gregg, que conta ainda com Anjelica Huston no papel da mãe de Vitor, ter uma pegada muito diferente da que o livro tem em sua narração o resultado é bom.
Sem chamar demais a atenção e com um orçamento baixo, Gregg fez bem em deixar o filme num tom mais light e fácil de se acompanhar. Caso se perdesse nas paranóias de Vitor Mancini teríamos aí mais de 3 horas de filme, na certa.
O legal é ver alguma história realmente original repercutindo. Se tem uma coisa legal sobre Chuck Palahniuk é que ele constrói personagens deliciosamente humanos – cheios de falhas, algumas gravíssimas, mas também possuidores de imensas virtudes nos momentos em que isso lhe é propício.

Uma cena ainda me intriga: como se engasga com ketchup puro?
E é essa decadência dos personagens centrais de Chuck que termina por salvar a eles e aos que eles são ligados. Mais ou menos como na vida real, as coisas acontecem de um jeito muito estranho. Um estranho que o autor gosta de explorar, brincando de um jeito sarcástico com suas crias e refletindo, mais uma vez, sobre os valores da vida moderna. Dessa vez é o amor e seu chatíssimo formato politicamente correto.
Como a produção alcança essa sacada no filme, então tá valendo. Mas não vá com tanta sede ao pote. Faça uma pipoca, chame uma garota bem fácil e se entretenha. Na manhã seguinte você vai correr pra livraria. Isso tudo com “Reckoner” na cabeça.
Direto do Porão, com Radiohead (recordando uma certa relação entre Pompéia e Oxford)
Vale a pena conferir também uma edição anterior do Live From The Basement com o Radiohead, muito doida e que mostra bem como o show capta a essência da banda.. Mesmo sendo um show de tv, dá um clima bem intimista. No caso do Radiohead o legal é ver como conseguem trazer pras músicas na versão ao vivo aquele bando de texturas e arranjos eletrônicos que parecem ser “coisa de estúdio”.
Ainda tô devendo um texto legal sobre o Scotch Mist, que considero uma espécie de Live At Pompeii do Radiohead. Aliás o mote seria justamente esse – o Radiohead é o Pink Floyd da nossa geração, em termos de inovações, direções inusitadas para seus trabalhos e em como as duas bandas exploram de forma semelhante artifícios eletrônicos e novas sonoridades, meio anti-mainstream.
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