Paparazzi xinga ex-editores e defende invasões de privacidade
Ex-funcionário do News of the World teve depoimento controverso na comissão dos grampos

Ex-jornalista do News of the World, Paul McMullan testemunha diante da comissão Leveson, que investiga os grampos telefônicos ilegais praticados por funcionários do tabloide britânico
Os ex-editores News of the World, Andy Coulson e Rebekah Brooks, são “a escória do jornalismo”, disse nesta terça-feira (29) um ex-jornalista do tabloide britânico à comissão que investiga o caso dos grampos telefônicos ilegais praticados por funcionários do jornal.
Paul McMullan, um dos poucos ex-funcionários do News of the World a afirmar que os crimes eram de conhecimento geral nas redações do tabloide, testemunhou nesta terça-feira à comissão Leveson, em Londres. Ele defendeu o “direito” de a imprensa invadir a privacidade das pessoas, e teve de ser alertado diversas vezes para que não se incriminasse diante do tribunal.
A comissão também ouviu nesta terça o repórter Nick Davies, do jornal The Guardian, que revelou o caso em julho deste ano.
De acordo com McMullan, Coulson foi o responsável por disseminar as escutas telefônicas como uma prática corriqueira no News of the World, em 2003. Ele também chamou sua ex-editora, Rebekah Brooks, de “chefe do crime”, diz o site do jornal britânico The Guardian.
O tabloide foi fechado em julho de 2011 por causa das acusações de seus repórteres estariam grampeando o telefone de familiares de vítimas de crimes e celebridades britânicas para conseguir furos de reportagem.
Perguntado sobre se seus editores sabiam das escutas ilegais, McMullan disse que Brooks e Coulson haviam encomendado os grampos telefônicos.
- Eu poderia ir até mais longe [do que dizer que eles sabiam]. Nós [jornalistas do News of the World] faziamos essas coisas para os nossos editores. Você só precisa ler as colunas de [Andy] Coulson, era tão óbvio. Mas eu não sei se algum de nós sabia que estava cometendo um crime na época.
McMullan acusou Coulson de ser o responsável por disseminar a prática no tabloide.
- Andy Coulson foi quem trouxe a prática toda consigo, quando virou editor do News of the World. Ele deveria ter tido a força de convicção para dizer que “às vezes você precisa ter um pé na ilegalidade”, mas ao invés disso, preferiu dizer que ninguém sabia de nada. Eles [Coulson e Brooks] deveriam ser os heróis do jornalismo, mas são a escória do jornalismo por tentar incriminar a mim e aos meus colegas.
Tanto Andy Coulson quanto Rebekah Brooks negam saber das escutas telefônicas ilegais praticadas pelo jornal.
Jornalista defende invasões de privacidade
O juiz Leveson, que preside a comissão, teve de alertar por várias vezes que Paul McMullan poderia estar se incriminando diante do tribunal. O ex-funcionário do News of the World defendeu que a imprensa tem o direito de invadir a vida pessoal dos cidadãos e disse que “privacidade é coisa para pedófilos”.
- Durante 21 anos eu invadi a privacidade das pessoas e nunca encontrei ninguém que não estivesse fazendo algo de errado. Privacidade é um espaço que pessoas ruins precisam para fazer coisas ruins. Privacidade é para pedófilos.
O jornalista também defendeu o trabalho dos paparazzi como os que provocaram o acidente de carro em que a princesa Diana morreu.
- Eu adorava essas perseguições de celebridades. Antes de a princesa [Diana] morrer era tudo tão divertido. Quantos trabalhos no mundo envolvem perseguições de carro?
McMullan defendeu seus antigos colegas do News of the World, a quem chamou de “honestos e honrados”, e disse que grampear o telefone da menina Milly Dowler (assassinada por um pedófilo em 2003) “não foi um mau-jornalismo”. Segundo ele, os repórteres do tabloide queriam descobrir se a menina estava viva, já que não tinham muita confiança na polícia.
* matéria publicada originalmente no Portal R7
Resenha de “Crime & Castigo”, livro-reportagem de Zuenir Ventura
PARCIALIDADE PASSIONAL
Zuenir Ventura faz do jornalismo um mea-culpa de uma tragédia nacional
As diretrizes de um ‘bom jornalismo’ indicam que o profissional deve primar pela isenção, além de passar horas a fio com seus perfilados… Mas e quando seu personagem é assassinado brutalmente, em meio a uma luta para a qual um país inteiro virara as costas nos anos que se passaram? Zuenir Ventura abandonou a cartilha para se dedicar a contar uma história que corria o risco de ser esquecida.
“Chico Mendes – Crime e Castigo“ é um relato um tanto quanto passional realizado pelo renomado jornalista, uma compilação das matérias feitas para um especial do Jornal do Brasil.
Ao longo dos fatos narrados pelo autor, um perfil do líder seringueiro e de seus assassinos é traçado a partir de relatos de terceiros e do próprio Zuenir. Pode não ser tão desafiador para um jornalista, mas torna o trabalho mais perigoso na medida em que se distancia de um ideal jornalístico.
Além de coletar depoimentos e entrevistas a cerca da morte de Chico e dos conflitos existentes no Acre, o autor presenciou acontecimentos que o fizeram testemunha ocular.
Felizmente, Ventura dribla as dificuldades tomado por um feeling, uma capacidade e tanto, certamente adquirida nos anos da prática jornalística, de ler as pessoas e de sentir a atmosfera daquele Acre tomado de medo e revolta dos derradeiros anos da década de oitenta.
Zuenir chegou ao Acre apenas oito dias depois do assassinato do líder que lutava contra a devastação da Amazônia. E a partir daí iniciou a série de reportagens que deu origem ao livro. Na primeira parte da narrativa, homônima e organizada como no clássico russo, sob o título de “O Crime”, é reconstituído o assassinato de Chico por meio de fortes relatos de violência e ameaças.
Ao passo em que reporta os fatos, o jornalista nos apresenta ao clima de faroeste amazônico, num ritmo imposto pouco a pouco, quando ainda possuía uma ponta de insegurança em suas opiniões. Cadenciando sua narrativa e pegando mais pesado nas descrições de seus personagens com o decorrer da confirmação de suas suspeitas.
Neste ponto talvez Zuenir Ventura tenha percebido a semelhança entre a realidade que vinha vivenciando e a relatada por Truman Capote em A Sangue Frio.
No entanto, o clima revanchista em torno do julgamento Darci e Darly, os matadores de Chico Mendes, não teve o mesmo efeito sobre Ventura que o sobre Capote, tendo o brasileiro se contagiado pelo sentimento de justiça ao invés da compaixão para com os assassinos sentida por Capote em seu clássico do new journalism norte-americano.
Zuenir Ventura fica chocado com as condições de vida no lugarejo de Xapuri, local do crime: um ambiente muito distante dos meios importantes e de alto escalão que costumava freqüentar na época. A miséria do lugar e o manancial de provas que apontavam para os acusados (como o fato de Chico ter, inclusive, denunciado o dia de seu assassinato) colocaram em xeque a consciência de um jornalista que se viu diante uma realidade que, talvez, ele pudesse ter relatado antes – quem sabe ‘evitado o pior’.
Aceitar integralmente o ponto de vista dos partidários de Chico Mendes também pode tê-lo ajudado a traçar o perfil do líder. Mas mesmo que ele estivesse ‘sendo levado pela situação’, ao menos o repórter teve a oportunidade de extrair o máximo de franqueza possível de seus entrevistados, sem se abster de criticar o que considera defeitos morais do personagem – como sua relação poligâmica.
Tão passional quanto os relatos de “O Crime”, “O Castigo”, a segunda parte do livro, que descreve o julgamento dos criminosos (ocorrido dois anos depois), é o fato que Zuenir Ventura adotou a tutela de Genésio – o adolescente única testemunha e marcado de morte.
À relação entre o título do livro-reportagem e o clássico de Feodor Dostoievski cabem reflexões ao ler o retrato de uma realidade dentro do Brasil, mas que tão poucos conterrâneos puderam se dar conta em tempo.
Assim como Raskolnikov, personagem do autor russo, Ventura se viu perdido em um dicotômico dilema: o que diferencia os homens ordinários dos excepcionais, dos heróis e tiranos, dos oprimidos e dos fortes. Afogado em sua própria consciência, exposto em um relato que nos evidencia uma culpa moral de toda imprensa, em não ter coberto o caso antes e com a devida atenção. Um sentimento compartilhado por todo o país.
Pode ser injustificável, mas Ventura de certa forma tenta se justificar tomando partido abertamente.
Mas não faz mal nisso, pois é que o faz se dedicar de corpo e alma a uma matéria seminal, a fim de confirmar sua participação para melhorar a sua própria história e fazer justiça com a própria máquina de escrever.
Resenha de “Abusado”, livro-reportagem de Caco Barcellos
O HABEAS-CORPUS DO CRIME
Caco Barcellos escreve brilhantemente sobre a realidade do tráfico de drogas no Rio de Janeiro, mas ficar em cima do muro sempre pende para algum lado
Até que ponto vai o poder da mídia, ou de um único jornalista, em condenar ou inocentar pessoas? Abusado, do jornalista global Caco Barcellos, nos embute essa reflexão a partir da história quase biográfica de Marcinho VP – o “dono” do morro Dona Marta e um dos cabeças da facção criminosa Comando Vermelho.
Abusado é ótimo enquanto livro-reportagem, trazendo uma linguagem invejável a até mesmo nomes como Tom Wolfe e Truman Capote graças a abordagem intimista e, em alguns momentos, cúmplice que consegue junto a seus personagens centrais – o tráfico, seus chefes e suas vítimas.
Por isso mesmo Caco peca em alguns aspectos. É condescendente com VP, pintando no traficante uma imagem que não lhe pertence completamente. O trata como um mártir, abusado por uma sociedade que o esqueceu. De fato ele é um “outsider” ao estilo Les Miserábles de Vitor Hugo. É um personagem rico, triste e, acima de tudo, forte e excluído.
No entanto, ao colocá-lo como vítima e um idealista (coisa que não é bem verdade) Caco o eleva a um patamar que não lhe pertence. E o pior é que o sucesso do livro-reportagem, brilhantemente redigido por sinal, tornou a abordagem erótica da pobreza e violência do Rio de Janeiro e do Brasil como um todo, uma tendência na literatura e no cinema brasileiro atual.
Como uma espécie de mentor dos Cidade de Deus e Tropa de Elite mais recentes, Abusado faz bem em não traduzir ou elitizar declarações desses marginais da sociedade. Deixa a cargo do leitor entender este mundo tão próximo e tão diferente da classe média ao qual se dirige com verbos mal conjugados e expressões bem cariocas e cheias de erros de ortografia.
No entanto, mesmo com o distanciamento proposto por Caco nas páginas iniciais do capítulo “Adeus às Armas”, em que admite a dificuldade de se escrever sobre um mundo criminoso sem fazer apologia, o autor deixa de lado a posição de narrador onisciente ao partir para uma condição de personagem-repórter.
Vide José Padilha em Tropa de Elite, filme que vai na contramão de Abusado ao retratar a rotina da polícia mais brutal do Rio e sua visão sobre a classe-média e o tráfico. Fica difícil assumir uma posição de ‘em cima do muro’ sem que esta se torne meio falsa, desprezando suas próprias capacidades narrativas e críticas. Ou vai ou fica, ou quebra ou racha.
Isso fica ainda mais estranho no livro em questão, após Caco ter passado quase 400 páginas retratando Juliano/Marcinho VP como um herói dos pobres nos dois capítulos iniciais da obra. Para Caco, parece que os crimes de Marcinho VP nunca são tão graves quanto os das gangues rivais, sempre mais violentas e injustificadas.
Marcinho também é mostrado como um sujeito letrado e preocupado com o bem-estar social de sua comunidade, o que soa hipócrita quando nos é mostrada a situação de suas mulheres e filhos – que continuam os mesmos miseráveis de antes, mesmo com a riqueza e o poder obtidos por VP com o crime organizado.
Talvez isso seja por que, conforme o andar da reportagem, Barcellos se tornou mais próximo de seu personagem – talvez por uma questão de auto-preservação, para que não ‘pegasse mal’ com sua fonte.
Fosse ele um Dr. Hunter S. Thompson, sem critérios mundanos, sem resquícios de moral e bons costumes e sem senso de imparcialidade e noção da realidade, o livro fosse mais interessante – com Caco Barcellos adentrando no real mundo do crime sem medo do que isso faria a sua reputação. Apologia por apologia, tudo é a mesma coisa.
Tudo isso nos leva a pensar sobre a condição que o próprio Marcinho VP já havia adquirido antes mesmo do livro ser lançado. Marcinho é uma celebridade do submundo da cultura brasileira, aquele ligado intimamente aos nossos podres e falhas morais. Tem em sua biografia passagens surreais, como ter ‘autorizado’ Michael Jackson a filmar um videoclipe na comunidade.
Que tipo de status a mídia pode exercer sobre a imagem pública de alguém? A fama é um habeas corpus? Quem tem fama pode tudo? Hunter Thompson, Lester Bangs e outros papas do new journalism e do gonzo, a quem Caco Barcellos bebe da fonte, diriam que sim. Abusado nos leva, em alguns momentos, a concordar.
Mas talvez a própria beleza do livro esteja em suas falhas morais, que nos permitem ainda mais a refletir sobre a realidade e o cotidiano do brasileiro real. Aquele que da pobreza de sagra campeão, que dos erros se torna modelo, aquele que acredita que não existe pecado imperdoável abaixo da linha do Equador e que os fins justificam os meios.
O sarcasmo opinativo
Oscar Maroni tenta nos vender um estilo de vida, mas uma imagem vale mais do que mil migués mentirosas

Oscar Maroni pagando de Narcisa - além de pegar mal, não engana ninguém
O fotógrafo sempre tem uma escolha. Por que partir para o óbvio e fotografar Oscar Maroni entre putas e homens de preto? Afinal essa é a imagem que já temos dele– um sujeito que polêmico, talvez de caráter um pouco duvidoso pelo que a matéria da revista Vice dá até a entender, que agora aponta para a política com seu jeitão escrachado e fora-da-lei.
Laura Wrona fez uma escolha muito legal. Quem imaginaria o “Larry Flynt brasileiro” numa ambiente de decoração clássica, em uma pose bem Narcisa Tamborideguy junto com seu fofinho cãozinho de madame no colo?
Assim, fugindo da ‘preguiça jornalística’, a revista Vice brinca com a nossa percepção de uma figura pública de um jeito um tanto quanto bizarro.
Relações com a semiótica de Peirce podem ser traçadas a partir do seu estudo de símbolos. O retrato de Oscar junto de um cachorrinho nos desperta alguma relação simbólica – associamos imediatamente a uma figura feminina ou de posição de prestígio social, em contradição com fama de pervertido que Maroni carrega em sua reputação.
É símbolo porque são pequenos elementos, como o cachorrinho de madame, que nos tiram a atenção e nos fazem logo associar a imagem de Maroni a uma idéia lugar-comum de bom gosto, boa ídole talvez, um arquétipo muito diferente da que normalmente temos dele.
Se desconhecêssemos seu perfil de bad boy, que não é exatamente contestado, mas sim mitificado na entrevista, poderíamos até nos enganar e pensa tratar de alguém mais respeitável (como todo o respeito ao empresário).
Nessa sacada de fugir daquilo que seria óbvio demais retratar em Oscar Maroni, tão envolvido com escândalos envolvendo dinheiro e mulheres, a fotografia carrega a matéria e lhe dá a opção de visualizar o retrato que o texto tenta passar desse figurão e mais, sutilmente questionar o perfil que ele tenta nos vender.
Desperta a contradição com o contexto de um homem que é considerado por muitos como um criminoso, em um retrato simbólico pincelado pelo sarcasmo. Ali está também o que símbolo nenhum pode disfarçar, que é a cara de Maroni – esse sorrisinho maroto, de quem tenta sair por cima e te passar a perna.
Fotografias como essa podem nos enganar ou nos fazer pensar. Ou melhor ainda, captar o senso de humor negro envolvido em sua candidatura a vereador.
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Esta é uma análise semiótica que escrevi pra aula da professora Simonetta Perischetti, da Cásper Líbero. A matéria completa onde se encontra a foto de Maroni está na edição 0 da revista Vice – que eu recomendo por sinal. Entra e lê tudo em www.viceland.com.br/




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