O'RELLY?!

Resenha de Wolfmother, Cosmic Egg

Publicado em Música, Resenhas por Caiopro em 11/11/2009

NOSTALGIA, GUITARRAS E MAMÃES ROQUEIRAS

O Wolfmother é o That 70s Show do rock moderno. Dito isso vamos olhar para Cosmic Egg da forma que ele deve ser visto – é sim uma descarada tentativa de emular os ídolos de Andrew Stockdale, o frontman e único membro remanescente do primeiro disco da banda.

Wolfmother Cosmic Egg

Wolfmother, Cosmic Egg (DGC/Interscope/Modular, 2009)

Stockdale é o tipo de adolescente que cresceu querendo ser o Jimi Hendrix. Toda a nostalgia alheia, comum no rock atual, se infiltrou em cada trejeito do guitarrista.

Fingindo que vive em 1972 e seguindo os passos de Hendrix do Experience ao Gypsys Band, Andrew Stockdale se recusou a encerrar as atividades após a deserção dos outros dois membros, quais os nomes são irrelevantes tão irrelevantes quanto os de seus substitutos a esta altura.

Tudo bem que havia um ótimo baixista/tecladista, como visto no DVD da tour da banda, Please Experience Wolfmother Live. Mas a mamãe-lobo é mesmo um cabeludo vestido como uma velha (cheio de panos psicodélicos enrolados no pescoço, cabeça, antebraço..) e o segundo trabalho do Wolfmother supera o disco de estréia por conseguir ser mais organizado.

As ideias sabbatianas já começam logo na primeira faixa, “California Queen”, uma das melhores e que tem uma pegada bem viajandona. “Sundial” traz uma parede de som do naipe Deep Purple, mas flerta com alguns riffs meio Soundgarden também, e ainda há tempo para para Stockdale mostrar uma  balada roqueira cheia de tesão em “White Feather”.

Se no primeirão, Wolfmother, a banda parecia jogar várias referências do pré-metal como tinta arremessada num Pollock abstrato, em Cosmic Egg as coisas estão mais redondinhas e sem mudanças de clima tão bruscas quanto as de “Dimension”. Fica o exemplo da última faixa, “Violence of the Sun”, onde o vocalista encarna Ozzy mais uma vez, acompanhado de um piano que dá gravidade a toda a barulheira ao redor.

Peraí, peraí. Mas isso era o legal do primeiro disco! A forma como um tecladão de DP e os riffs arrastados e em sintonia com o vocal berrado eram combinados de um jeito meio nada a ver, com cara de tiração de onda. Bom, um dos méritos deste segundo álbum é ser totalmente diferente e ao mesmo tempo indiscutivelmente um disco com a cara do Wolfmother. O jeitão psicodélico, pesado e conduzido por riffs marcantes. Tudo isso continua lá, para provar que o cara não é tanto a criança problema do AC/DC mas sim que pode ser a mamãe roqueira de uma geração que ainda está na encubadora.

Isso é por que a cara do Wolfmother é este frontman meio lunático, meio wannabe, meio fora de lugar tipo aquele cara do The Darkness. Mas onde o The Darkness falhou o Wolfmother vem se saindo muito bem – resgatando uma forma mais crua e agressiva de rock’n’roll, próxima dos clássicos e longe o suficiente do stoner metal pra ser uma coisa totalmente única – mesmo soando tão clichê.



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O Antihype (?!) – Resenha de ‘Anticristo’ de Lars v. Trier

Publicado em Cinema, Resenhas por Caiopro em 03/10/2009

Lars Von Trier tira sarro do espectador e se recusa a justificar o ‘mal’ – em uma história sobre a culpa, que instiga do nojo a misoginia ‘gratuita’, dizem por aí..

Poucos diretores podem se gabar do impacto que conseguem com seus filmes. São os verdadeiros artistas, aqueles que ao invés de passar a mão na cabeça do espectador o provocam e ultrajam. Lars Von Trier faz disso sua marca registrada desde Dogville, quando escolheu simplesmente abolir o cenário. É um reacionário mesmo, que faz por escolha própria, a ofensa de quebrar as regras de como se monta um filme.

"..become the green"

"..become the green"

Se o forte do cineasta dinamarquês é suscitar ânimos, talvez Anticristo seja seu caso mais extremo de megalomania. Ou então de pura piada com si mesmo. Difícil é definir numa única exibição se você ama ou odeia o filme. Especialmente depois que uma raposa infanticida olha para a câmera e urra “o caos reina”.

Em Cannes, que premiou Charlotte Gainsbourg como melhor atriz a exemplo de Nicole Kidman em Dogville, houve até mesmo risadas para esta cena. E são vários os momentos em que o filme lhe desafia a continuar assistindo – o que já começa na agoniante porém bela cena de prólogo, onde a criança caminha para a morte embalada por trechos de “Rinaldo”, ópera de Handel.

Os cortes são mesmo o forte de Von Trier, que aqui alternam uma leveza e doçura na morte de uma criança de 2 anos (!) a cenas de penetração explicita entre Willem Dafoe (o marido) e Charlotte Gainsbourg (a esposa).

Personagens sem nome, eles lutam para passar por um dificílimo período de luto. A mulher tem padrões violentos de comportamento depressivo – numa tristeza extrema que culmina até ela bater diversas vezes com a cabeça contra os azulejos do mesmo banheiro onde transavam enquanto o pequeno Nick perambulava pela casa.

Charlotte Anticristo

A personagem de Charlotte Gainsbourg remói culpas e a atriz topa tudo - de sexo explícito a cabeçadas no vaso sanitário

A culpa consome a personagem e ela já não tem o controle de suas próprias ações. Sofrendo ao ver sua mulher naquele estado e tomado pelo orgulho masculino, o marido, psicanalista, resolve tratá-la sozinho. Confrontarão os seus medos e irão até a floresta do Éden – que nada tem de paradisíaco.

Enquanto o marido sem nome tenta ajudar a esposa ele também a empurra mais profundamente nos estágios de seu luto, de padrões extremos e reações violentas. São momentos de agonia que sempre culminam no ato sexual, cada vez mais cheios de requintes de crueldade e sofrimento.

Se a cena de abertura retrata o sexo com beleza o mesmo não irá se repetir no restante da película. Cada vez mais o ato é repugnante, cada vez mais brutal.

Vale a pena alertar para as cenas bizarras que envolvem nudez total e masoquismo puro – como quando a mulher, já no seu estado mais alucinado, ataca o marido para rapidamente trocar de idéia e passar a transar com ele. Rapidamente ela se sente novamente insegura que ele vá deixá-la, então arremessa um pedaço de madeira em seu pênis. Arrependida ela o masturba, então ele, desmaiado, ejacula sangue. Acredite, piora depois.

Um dos motivos que causaram ultraje em boa parte da critica foi o teor altamente misógino que o filme dá a deixa. A personagem de Gainsbourg é uma estudiosa que, no verão anterior a morte do filho, estudava sobre as torturas cometidas contra mulheres durante a Inquisição.

O sexo é sujo, é brutal. Isso para Lars von Trier, sick twisted fuck..

O sexo é sujo, é brutal. Isso para Lars von Trier, sick twisted fuck..

Isso tudo acontecera enquanto ela estava sozinha com seu filho, isolada com sua tese ali naquela mesma cabana na floresta do Éden. Estranha como é a mata, algo ali a influencia a perceber (ou acreditar) no poder da natureza e a sua feminilidade no pecado e na morte. Para a esposa, a natureza é a Igreja de Satã. É muito mais do que o verde, é a natureza humana – a qual é muito mais forte nas mulheres, origem de todo o pecado.

As seqüencias pintadas por Lars vão do belo ao brutal, como já dito. São passagens que muitas vezes parecem mais com pinturas, remetendo ao cinema de arte francês. São também essenciais para a construção da atmosfera, enquanto a mulher encara a terapia e delira em seu subconsciente já nos apresentando elementos da floresta.

"where are you!? you bastard!!"

"where are you!? you bastard!!"

A forma como o cineasta lida com os pequenos detalhes também é notável. Nada passa desapercebido e pequenos fragmentos que pareciam sem importância no início da história vão dando grande sentido a toda a loucura da mulher, apresentando também um histórico e os sinais místicos deste terror psicológico.

Recheado de passagens com referencias bíblicas e de misticismo, Anticristo se propõe mesmo é a tocar em assuntos tabu de briga de sexos. Vai ver ele tomou um baita pé na bunda antes de fazê-lo, ta ai uma boa justificativa para o filme – muitos críticos exigiram isso dele, que se recusou a explicar.

Na verdade é muito mais uma historia de loucura mesmo, mas que pontua a relação homem x mulher do ponto de vista não da natureza, como é encarado pela mulher, mas sim dos arquétipos. Foram estes arquétipos medievais de maldade que a influenciaram, será? Será que o homem é o salvador da mulher, quem lhe dá algum equilíbrio?

O final do filme não é nada conclusivo, por que este escandinavo se espelha justamente no mais controverso dos escandinavos do cinema – Ingmar Bergman. Há muito de “Cenas de um Casamento” aí, a dinâmica de um relacionamento conturbado.. isolados numa floresta estranha.

Há também uma bela relação com “Repulsa ao Sexo”, de Roman Polanski, no ritmo sexual da protagonista. Por vezes o ritmo de câmera lembra até mesmo os filmes mais novos de horror, tipo “Bruxa de Blair” – sinuosamente balançando a câmera de um lado pro outro, em especial nas cenas mais brutais.

Ame ou odeie ou os dois: 'Anticristo' é um clássico instantâneo

Ame ou odeie ou os dois: 'Anticristo' é um clássico instantâneo

Mas o verdadeiro mérito de Anticristo não é misturar técnicas, como irão dizer no futuro – quando entenderem melhor – os críticos do bonequinho da Folha, que deu apenas uma estrela ao filme. Nem é dar o primeiro papel de não-monstro ao Willem Defoe (pausa para uma piada). É sim fazer o que quase ninguém consegue na sétima arte destes anos 00 – te deixar na dúvida se gostou ou não, com um filme na cabeça durante dias para apenas no final você perceber que das duas, uma: ou você ama odiá-lo ou você odeia amá-lo. Envergonhe-se e orgulhe-se de conseguir ver até o final.

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