Segredos do WikiLeaks condenam seu próprio trabalho
Reação da imprensa ao vazamento de informações confidenciais de dentro do site mostra que a mídia entendeu o jogo: não pode haver dois pesos e duas medidas

Dados de informantes do WikiLeaks foram acidentalmente divulgados junto de documentos confidenciais das embaixadas americanas. Segundo jornais europeus, erro teria sido provocado por uma rixa entre o fundador do site, Julian Assange (direita), e seu ex-sócio, Daniel Domscheit-Berg (esquerda)
‘Segredo’ não é uma palavra no vocabulário de Julian Assange, o infame fundador do site especializado no vazamento de documentos oficiais de governos, WikiLeaks. Entretanto, as recentes discussões entre ele e seus antigos aliados no jornal britânico The Guardian acendem a luz vermelha em uma organização que se acostumou a estar certa por uma questão de princípios. Fundado em 2006, o WikiLeaks passa por um momento de contestação, após centenas de milhares de documentos confidenciais terem vazado ainda contendo os nomes e dados pessoais de suas fontes anônimas – o que coloca em risco a segurança de seus informantes.
O furo foi revelado pelo jornal alemão Der Freitag na semana passada, e colocou Assange – preso desde 2009 em uma mansão nos arredores de Londres enquanto espera o fim do julgamento de sua extradição para a Suécia por supostos crimes sexuais – novamente no olho do furacão. Ele reclama que foi traído por seus antigos aliados, que já somavam centenas de jornais e outros veículos de comunicação no mundo todo.
Assange contesta uma questão em que sempre se apoiou: para ele há dois pesos e duas medidas, mas não é assim que a mídia internacional está tratando o caso. Inspirada na frase do cineasta francês Jean-Luc Godard (“matar uma pessoa para defender uma ideia não é defender uma ideia, é matar uma pessoa”), a imprensa internacional entende que não há diferença entre revelar segredos do WikiLeaks e revelar os bastidores dos porões dos governos mundiais. Assim, antigos aliados como o núcleo editorial do Guardian, têm feito duras críticas a Assange. Eles atribuem o erro puramente a uma questão de negligência desse australiano de cabelos brancos, voz cavernosa e presença intimidadora.
Ao iniciar uma campanha contra a confidencialidade de documentos governamentais, como casos terríveis de abusos cometidos pelos Estados Unidos e Reino Unido nas guerras do Afeganistão e Iraque; torturas e prisões infundadas em Guantánamo (a polêmica base militar americana para onde são enviados suspeitos de terrorismo); e, no caso de maior repercussão, a divulgação de centenas de milhares de telegramas oficiais de embaixadas americanas em diversos países, Assange comprou uma causa difícil de ser defendida quando ele mesmo não consegue manter seus próprios segredos.
O que irrita o australiano é a não-cumplicidade de seus pares na guerra contra a confidencialidade de documentos, mas ele deveria olhar melhor para seu próprio umbigo. Assange foi abandonado pelos amigos, como seu porta-voz e sócio de longa data, Daniel Domscheit-Berg, que acaba de fundar um site para rivalizar com o WikiLeaks, o OpenLeaks. Domscheit-Berg acusa Assange de obedecer à uma agenda política planejada e promete revelar novos segredos governamentais sem pensar demais nas consequências políticas disso. Muitos concordam com ele.
O caso dos documentos não revisados é fruto da falta de confiança que Assange inspira em seus amigos, e revela o isolamento em que ele se encontra. Após iniciar uma verdadeira Cruzada contra os segredos de governo, ele esperava um pouco de companheirismo. No entanto, o que Assange falha em perceber ao se envolver em discussões acaloradas com jornalistas do The Guardian nas redes sociais (como fez durante toda a semana através do microblog Twitter) é que as investigações da imprensa em torno da motivação política dos telegramas vazados são um reflexo da própria batalha que o site comprou. Há uma agenda política guiando os vazamentos perpetuados pelo WikiLeaks, e isso não está de acordo com as ideias que ele mesmo diz defender.
Tudo bem que o WikiLeaks pode ser lembrado como o responsável pelos maiores furos jornalísticos das últimas décadas no que diz respeito a política internacional. Tudo bem que o WikiLeaks continue a se identificar como um bastião da liberdade de imprensa e da transparência, mas o site só voltará a ser aceito como tal quando tomar iniciativas reais para transparecer seus motivos. Assange reclama que os ideais do WikiLeaks em revelar coisas que nossos governos não gostariam que nós soubéssemos são mais importantes do que suas próprias motivações em fazer isso. Mas não é assim que o jornalismo funciona. Não há como defender uma ideia usando uma outra ideia errada. “Matar uma pessoa para defender uma ideia não é defender uma ideia, é matar uma pessoa” e não existe uma área cinzenta que o absolva das suas próprias motivações anti-éticas. A guerra ao terror não justifica as ações criminosas de alguns governos e você nos mostrou isso, WikiLeaks. Por isso, obrigado. Você inaugurou uma nova era de jornalismo investigativo que pode fazer como uma das suas primeiras vítimas, você mesmo.
* escrito originalmente para o Paulista 900 e para a aula de Jornalismo Impresso III, do ex-professor da Cásper Líbero, Hugo Studart
Advogados usam “ereções involuntárias” para defender criador do WikiLeaks
Julian Assange enfrenta processo de extradição para a Suécia por crimes sexuais
O último dia da audiência que julga um recurso contra a extradição de Julian Assange provocou gargalhadas no Supremo Tribunal de Londres nesta quarta-feira (13), segundo relatos publicados no jornal britânico The Guardian.
Após os argumentos da acusação, os advogados de defesa de Assange procuraram desqualificar as queixas de crime sexual alegado pelas duas suecas que acusam o criador do WikiLeaks com argumentos pouco convencionais – até a ereção noturna de Assange entrou na roda.
Depois de a promotora Clare Montgomery ter acusado Assange de “coagir” as mulheres para ter relações sexuais sem camisinha, o advogado de defesa do australiano tentaram convencer os dois juízes encarregados do caso a invalidar o mandado de prisão emitido pela Justiça sueca.
No argumento, o advogado Ben Emmerson tentou desqualificar os depoimentos das suecas e repassou os acontecimentos que levaram ao pedido de extradição de seu cliente – o australiano é acusado de fazer coagir as mulheres a fazer sexo sem camisinha, o que, na Suécia, equivale ao crime de estupro, se um juiz entender assim.
- Ele [Assange] está ao lado dela em uma cama de solteiro. Homens têm ereções involuntárias durante a noite. Em uma cama de solteiro, há uma grande chance de que ela entre em contato com seu pênis.
A resposta do juiz Justice Ouseley levou o tribunal à gargalhada.
- Eu concordo…
“Acusação é maluca”, diz defesa
Emmerson acrescentou detalhes sobre os encontros de Assange com as vítimas, citando os depoimentos delas, que disseram ter tido “almoços íntimos”, convidado o australiano para dormir em sua casa, dado uma festa em sua homenagem e mandado mensagens em uma rede social dizendo estar “com a pessoa mais interessante do planeta”.
Segundo Emmerson, a ideia de isolar um momento de falta de consentimento “em um encontro onde ambos consentiram antes e depois é maluca”.
Ele se referia às declarações da promotoria, que mais cedo afirmou que Assange teria estuprado uma das vítimas enquanto dividia a cama com ela.
Acusadora não quis sexo, mas “pode ter mudado de ideia no meio”
De acordo com a promotora Clare Montgomery, Assange teria forçado a vítima a manter relações sexuais sem camisinha enquanto ela dormia. No entanto, apesar de afirmar que o sexo não foi inicialmente consentido, a própria promotora admitiu que “talvez ela tenha mudado de ideia no meio”, depois de acordar.
Segundo Clare, o ato inicial de estupro não pode ser relevado mesmo que ela tenha consentido depois.
Assange tem um mandado de prisão para ser interrogado por três acusações de agressão sexual e uma de estupro pela Justiça sueca.
Ele teria mantido relações sexuais sem camisinha com duas mulheres em agosto de 2010.
Defesa questiona mandado de prisão
A defesa de Assange também questionou o mandado de prisão emitido pela Justiça sueca, válido para toda União Europeia. Segundo a defesa, as acusações estão “fora das proporções” necessárias para estabelecer esse tipo de mandado.
Além disso, a defesa argumentou que uma das vítimas “nem queria ter ido à polícia” e foi coagida por autoridades suecas a delatar Assange. Segundo eles, ela queria apenas que Assange fizesse testes de sangue, mas foi pressionada pela polícia a dar queixa por agressão sexual.
No primeiro dia de audiência, os advogados do australiano tentaram convencer os juízes de que as acusações contra Assange não seriam consideradas um crime no Reino Unido. Por isso, ele não poderia ser extraditado do país.
A defesa de Assange argumenta que ele não teria um julgamento justo no país nórdico e que o processo serviria de fachada para uma futura extradição para os Estados Unidos.
Em 2010, o WikiLeaks divulgou uma série de telegramas confidenciais de embaixadas americanas, o que causou grande mal-estar nas relações entre os EUA e vários países. Pouco depois, Assange foi preso e permanece em prisão domiciliar desde dezembro de 2010.
* matéria publicada originalmente no Portal R7
O WikiLeaks e a tirada do ano
O obituário de Julian Assange, fundador, editor-chefe e principal porta-voz do site Wikileaks, poderia se utilizar de uma piada do Saturday Night Live, mas a história do australiano Assange e dos documentos sigilosos revelados pelo site é bem séria. O Wikileaks leva o jornalismo e a comunidade internacional a questionamentos importantes sobre privacidade, direito a liberdade de expressão (e de imprensa) e, principalmente, a possibilidade de enxergar por trás das máscaras de governos que não nos contam tudo o que deveríamos saber.
Em dezembro de 2010, pouco antes da prisão de Julian Assange no Reino Unido, onde agora aguarda recurso quanto à sua extradição para a Suécia pelo envolvimento em um nebuloso escândalo sexual, o comediante americano Bill Hader acertou na mosca. Em uma imitação de Assange e também de Mark Zuckerberg, o jovem criador do Facebook (empresa cuja história ganhou um Oscar pelo filme A Rede Social), o esquete de Hader ironiza a eleição de Zuckerberg como “Homem do Ano” pela revista Time. “O Facebook ganha dinheiro para revelar suas informações que podem ser usadas por governos, eu [Assange] revelo informações secretas dos governos de graça para serem usadas por você e ele é o homem do ano” dispara Hader, em uma impressão da voz cavernosa que já é característica para a supercelebridade Julian Assange.
Hoje amarrado a uma tornozeleira eletrônica que vigia cada passo seu, Assange mal começou a batalha judicial contra, particularmente, o governo dos Estados Unidos – seu principal alvo. Desde 2006 o Wikileaks revela documentos secretos de diversos países, em especial dos EUA,para o acesso de qualquer pessoa em qualquer parte do mundo pela internet. Quem não enxerga o tamanho da virada de mesa que isso representa pode dizer que se preocupa com a privacidade do restante da população. Se é tão fácil conseguir, por meio de uma extensa rede de informantes ao redor do globo, informações sigilosas do governo mais poderoso do mundo, quem garante que as nossas próprias informações secretas e privadas também não estão sendo utilizadas arbitrariamente por alguém? Pois bem, pequeno gafanhoto, certamente estas nossas informações estão, sim, sendo usadas por alguém. E podemos colocar nessa lista os governos de nossos próprios países e também ‘hackers’ como os informantes do Wikileaks.
A diferença é que, no caso do Wikileaks, a internet agora rompe uma fronteira e tanto. Podemos vislumbrar os verdadeiros fatos por trás de diferentes acontecimentos da história, em suas versões mais oficiais, sem ter o devido credenciamento. Pode ser uma aposta perigosa, mas é uma aposta e representa um bastião da liberdade de imprensa atualmente.
Quando o Wikileaks divulgou centenas de milhares de telegramas secretos das embaixadas americanas em mais de cem países, revelou-se também a verdadeira face da diplomacia americana, da qual já se suspeitava mas não podia ser obter evidências. Os telegramas revelam, por exemplo, a verdadeira opinião das Relações Exteriores dos EUA quanto a Equador (um país onde a corrupção policial é sabida e incentivada pelo presidente Rafael Correa, na visão da embaixadora americana em Quito). Em outro caso mais recente, os arquivos secretos de todos os presos de Guantánamo também mostraram o que muitos já suspeitavam: dezenas foram presos injustamente. Agora é tudo oficial, e não versão da mídia.
E esse é o ponto principal da polêmica Wikileaks. Será que a imprensa precisava mesmo do site? É certo que, nestes cinco anos de existência, com certeza absoluta Assange e seus informantes já tiveram mais furos jornalísticos importantes que em mais de duas décadas de jornalismo internacional. Dão aula e suas revelações também trazem de volta o interesse da sociedade para os jornais impressos. Entre os beneficiados desse jogo, estão os cinco grandes parceiros do site: os jornais The New York Times (EUA), The Guardian (Reino Unido), El País (Espanha), Le Monde (França) e Der Spiegel (Alemanha).
Daí há de se questionar por quê Assange e Bradley Manning são os únicos a serem presos nessa história. Manning é o informante que revelou ao Wikileaks vídeos de helicópteros americanos abrindo fogo arbitrariamente contra um grupo de pessoas no Iraque. No ataque, crianças e dois jornalistas da Reuters morreram. O caso ficou conhecido como Collateral Damage (“dano colateral”, em alusão às declarações de generais americanos sobre a morte de civis durante a Guerra do Iraque). Como era um oficial das Forças Armadas, Manning está sendo julgado por traição em uma corte marcial americana, e pode ser executado.
Se o processo de extradição de Assange avançar e ele for mesmo condenado na Suécia, pode ser este seu destino também. Inclusive o Senado americano já estuda esta proposta, com o senador Joe Lieberman sendo um dos principais defensores da pena capital para o australiano, segundo ele um “traidor que põe a segurança nacional em risco”.
Fica difícil entender como é que um australiano, preso em Londres por determinação de uma corte sueca, pode ser um traidor dos EUA mais do que o editor-chefe do The New York Times, que publicou as matérias, ou mais do que o importante jornal The Washington Post, que segundo o Wikileaks, teve acesso ao vídeo dos helicópteros no Iraque mas se manteve calado durante dois anos.
De fato a única acusação que faz sentido contra Assange é a de que ele organiza uma agenda política própria para a divulgação de cada um destes casos. Segundo seus críticos, o Wikileaks serve apenas como um instrumento contra o poder dos EUA no mundo. Faz sentido.
Mas o Wikileaks é, mais do que tudo isso, uma dura crítica ao jornalismo praticado hoje. Foi preciso existir um site dedicado ao vazamento de documentos oficiais para que a mídia fosse finalmente atrás de casos tão importantes quanto a situação dos prisioneiros de Guantánamo, expostos a tortura que já foi admitida por autoridades americanas, ou das relações dúbias de embaixadas do país em todo o mundo.
Se realmente prenderem e matarem Julian Assange o mundo perderá um dos principais nomes desta primeira década de século 21. Perderá também a moral para exigir um jornalismo investigativo de qualidade.

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