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Cristina, o câncer que não era câncer e as compras

Publicado em Mundo, Política por Caiopro em 10/01/2012

Líder comunicou suposto câncer no dia em que anunciou compra de dois apartamentos chiques

Cristina e o luxo

Presidente argentina, Cristina Kirchner, é conhecida por ser uma amante de moda e produtos de marca

A doença da presidente argentina Cristina Kirchner afastou dos noticiários uma compra milionária da família, relatou a imprensa argentina nos últimos dias. Cristina, que anunciou ter sido diagnosticada com um carcinoma (um tumor cancerígeno) na tireoide no dia 27 de dezembro, teria comprado dois apartamentos milionários no bairro chique de Puerto Madero, em Buenos Aires.

As informações foram publicadas no Diário Oficial do governo no mesmo dia 27, informam jornais como o La Nación e o oposicionista Clarín.

Cristina passou por uma cirurgia para a retirada do suposto tumor no último sábado (7), quando se descobriu que ela, na verdade, tinha apenas nódulos na tireoide. Os corpos estranhos foram retirados com sucesso, mas a reação calma da presidente chamou a atenção de colunistas da imprensa local.

Usuários das redes sociais ironizaram a situação, chamando o “câncer que não era câncer” de “o primeiro milagre de São Néstor”, em referência ao ex-marido da presidente, falecido há pouco mais de um ano e meio.

Já a oposição, liderada pelo ex-candidato presidencial Ricardo Alfonsín, filho do ex-presidente Raúl Alfonsín, se limitou a, sarcasticamente, se dizer feliz por saber que “a presidente não padece da doença que se supunha que tinha”.

No entanto, a história toda causa mais arrepios do que risadas quando nos deparamos com os detalhes.

De acordo com informações do próprio Diário Oficial do governo argentino, a presidente agora é dona de dois apartamentos no Puerto Madero, um dos bairros mais chiques da capital Buenos Aires. Um deles tem 400 m². O outro, 200 m². Para se ter uma ideia do luxo envolvido no negócio, o primeiro apartamento dá direito a oito vagas de garagem.

Segundo o La Nación, a família Kirchner é dona do imóvel desde 2010, mas o anúncio de sua compra curiosamente só foi feito no mesmo dia em que a presidente revelou “estar com câncer”.
E há outros motivos para desconfiar.

No mesmo dia em que ocorreu o anúncio do câncer, Kirchner ainda sofreu uma derrota muito amarga. Finalmente, após quase dez anos de batalhas judiciais, testes de DNA provaram que os filhos adotivos da dona do jornal Clarín, Ernestina Herrera de Noble, não são filhos de desaparecidos da ditadura. Foi um duro golpe para a presidente que se elegeu e reelegeu prometendo levar o caso até as últimas consequências, acusando Ernestina de ter sido uma aliada do regime militar e uma sequestradora de crianças.

O anúncio, feito na voz cabisbaixa da líder do grupo Avós da Praça de Maio (que procura filhos de desaparecidos políticos), sequer foi noticiado por diversos jornais governistas.

Desde o governo de Néstor, o kirchnerismo realiza uma verdadeira cruzada contra o grupo Clarín. Kirchner perdeu com a notícia de que “era falsa a acusação” contra a mãe adotiva do casal de gêmeos Felipe e Marcela, mas no final ainda conseguiu a polêmica aprovação de uma lei que monopoliza a produção de papel de jornal nas mãos do governo.

Mas, voltando ao câncer, nem os médicos apresentaram, ainda, uma explicação para o diagnóstico incorreto. Apenas 2% dos casos de câncer na tireoide são diagnosticados com algum erro, dizem médicos ouvidos pelo Clarín e pelo La Nación. Ou Cristina tentou esconder algo, ou a competência dos médicos da presidente deveria ser duramente questionada. Não foi, e Cristina, na verdade, apenas agradeceu e rasgou elogios à sua equipe de diagnóstico e cirurgia.

Em todos os casos, as perspectivas para a relação entre Cristina e a mídia argentina em 2012 são preocupantes.

* matéria publicada originalmente no Portal R7

Cristina Kirchner, a viúva de negro que conquistou os argentinos

Publicado em Mundo, Política por Caiopro em 23/10/2011

Dona de uma personalidade complexa, a presidente tenta se reeleger neste domingo (23)

Cristina viuva

Vestindo preto desde a morte de seu marido Néstor, Cristina Kirchner visita uma mesquita em viagem oficial a Istambul, na Turquia, em janeiro de 2011

A presidente argentina, Cristina Kirchner, com sua reeleição assegurada no domingo (23), é uma advogada de 58 anos com personalidade complexa, ao mesmo tempo frágil e autoritária, sedutora e taxativa, elegante e cerebral.

“Cristina tem uma dose de racionalidade. Ela é mais analítica”, disse em entrevista Alberto Fernández, chefe de gabinete dos Kirchner entre 2003 e 2008. Seu marido e antecessor, Néstor Kirchner (2003-2007), “era muito mais intuitivo”, diz.

Assim, onde Néstor Kirchner impunha suas decisões por seu próprio poder, Cristina precisa se justificar.

Reconhecida por sua facilidade com a oratória, é capaz de falar durante longo tempo sem papéis, citando cifras para apoiar suas afirmações.

Essa facilidade, herdada de sua passagem pelo Congresso, dão a ela um ar de “professora de escola” que irrita bastante muitos argentinos.

Cristina e Nestor

Cristina lança troca olhares com o marido Néstor Kirchner, que faleceu em 2010 vítima de um ataque cardíaco

Vaidade da presidente é prato cheio para a oposição

Sempre de salto alto, unhas compridas, com cabelos longos sobre os ombros, Cristina já teve quedas de pressão que a obrigaram a suspender suas atividades, inclusive viagens ao exterior.

Solitária, também se distancia de seus colaboradores. “Cristina não te deixa margem para uma relação mais íntima. Ela é estadista e impõe distância”, disse um funcionário da Casa Rosada que não quis se identificar.

Alguns reprovam na presidente seu gosto por marcas de luxo, como Louis Vuitton ou Hermès. Na televisão, um comediante a imitou: “até a Victoria… Secret!”.

“Sempre foi muito elegante e sempre se maquiou muito”, afirma Fernández, completando que “com Néstor podíamos esperar até uma hora para ir jantar, porque ela estava se arrumando”. A obsessão pela aparência é na Argentina um traço típico da classe média à qual Cristina pertence.

Estilo ‘avassalador’ atrapalha negociações

Nascida em La Plata, cidade universitária a 60 km ao sul da capital, na província de Buenos Aires, aos 20 anos Cristina conheceu Néstor Kirchner, três anos mais velho, e se torna sua mulher seis meses depois.

Ambos militavam na Juventude Peronista antes de se refugiar na Patagônia durante a ditadura (1976-1983). Tiveram dois filhos, Máximo, 34 anos, e Florencia, 21.

Cristina Kirchner “é avassaladora”, destaca Alberto Fernández, apesar de “às vezes se chocar com a realidade e se dar conta de que não pode continuar avassalando”.

“Ela não escuta. Não há lugar para o diálogo”, diz Hermes Binner, seu rival da Frente Ampla Progressista, que está em segundo nas pesquisas, mas cerca de 40 pontos atrás de Cristina.

O grande conflito com os produtores agrícolas, em 2008, revela esse traço de seu caráter. Ela rejeitou até o final qualquer negociação, e perdeu mais de 20 pontos de popularidade. Seu vice-presidente, Julio Cobos, votou contra ela no Senado e passou à oposição.

Luto pelo marido é arma política para Cristina Kirchner

O enriquecimento pessoal dos Kirchner desde sua chegada ao governo (+928% entre 2003 e 2010, segundo sua declaração oficial de patrimônio) incomoda cada vez mais.

Mas a morte de seu marido, após uma crise cardíaca em 27 de outubro passado, lhe permitirá mostrar uma imagem totalmente diferente: mais sensível que autoritária e menos frívola.

Quase um ano depois da morte, Cristina Kirchner mantém o luto, que se transforma em uma ótima arma política.

“À noite, é a mulher que chora por seu marido. De dia, é a presidente”, resume Estela de Carlotto, titular das Avós da Praça de Maio.

Quando Cristina Kirchner fala “dele” na televisão, com sua voz embargada, sabe que chega diretamente no coração dos argentinos.

Para ser mais competitiva, só divulgou sua candidatura no último minuto.

“Já fiz tudo o que podia fazer”, disse em maio passado. No fim de junho, porém, acabou anunciando que tentaria a reeleição: “sempre soube qual era o meu dever”.

* matéria publicada originalmente no Portal R7

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Ricardo Alfonsín tenta seguir os passos do pai até a Presidência da Argentina

Publicado em Mundo, Política por Caiopro em 23/10/2011

Líder da oposição radical não está se saindo tão bem quanto esperava inicialmente

Alfosín e familia

Candidato à Presidência argentina, Ricardo Alfonsín (centro) posa ao lado de estudantes de engenharia da Universidade de Buenos Aires. Apesar de ter ficado em segundo lugar nas eleições primárias, a campanha de Alfonsín não vai tão bem - e o candidato já aparece como o quarto colocado nas últimas pesquisas de opinião

O candidato à Presidência da Argentina pela Udeso (União para o Desenvolvimento Social), Ricardo Alfonsín, luta para seguir os passos de seu pai, Raúl Alfonsín (que governou o país entre 1983 e 1989), após ter obtido o segundo lugar nas eleições primárias.

Nascido no dia 2 de novembro de 1951 na cidade de Chascomús, este líder opositor não esconde que usou os trajes de seu pai nem se nega a repetir nos atos de campanha o popular gesto do ex-presidente com as mãos entrelaçadas no alto.

- Construo frases parecidas, inclusive. Há quatro ou cinco anos uma menina me disse: ‘A voz é incrível’. Mas não é uma coisa consciente.

Ricardo Alfonsín começou a crescer como figura política após a morte, em 2009, de seu pai, que chegou ao poder em 1983 com um amplo respaldo popular.

Em dezembro de 2009, o candidato assumiu como deputado nacional pelo Acordo Cívico e Social, uma coalizão integrada pela União Cívica Radical e a Coalizão Cívica, forças com as quais o radicalismo de Alfonsín rompeu mais tarde.

A partir dali, o legislador começou a somar apoios na centenária força social-democrata até se transformar em postulante à Presidência, após se impor sobre concorrentes partidários como o vice-presidente argentino, Julio Cobos, e o senador Ernesto Sanz.

Alfosín esperava se sair melhor

Porém, este advogado e professor de imagem austera não alcançou o resultado que esperava nas eleições primárias do dia 14 de agosto. Apesar de ter ficado em segundo, Alfosín só obteve 12,2% dos votos, 38 pontos percentuais atrás da atual presidente argentina, Cristina Fernández de Kirchner.

Além disso, várias pesquisas apontam que ele ficará em terceiro ou quarto no pleito geral deste domingo (23), embora busque se mostrar como a alternativa opositora – principalmente por meio de ataques a Cristina, feitos em seu programa eleitoral na TV.

- Sou Ricardo Alfonsín e queria falar com você, Cristina. Possivelmente a senhora vai ganhar as próximas eleições, mas, com todo respeito, sinto necessidade de lhe dizer algo: não acredito nem um pouco em você.

Trajetória

Antes de entrar na política, o terceiro dos seis filhos do casamento entre Raúl Alfonsín e Lorenza Berreneche vendeu pavios para tornos industriais na periferia de Buenos Aires, foi professor em colégios de ensino médio e trabalhou como advogado em sua cidade natal.

Em 1982, casou-se com Cecilia Plorutti, com quem teve Lucía, Marcos, Ricardo e Amparo.

- Eu me casei velho, ia completar 31 anos. Tive 10, 11 anos para fazer bastante bobagem.

No final da década de 1990, Alfosín ganhou forma a linha interna que ele criou junto com um grupo de amigos, chamada Radicais para a Mudança, destinada ao fortalecimento e renovação da União Cívica Radical.

Entre 1999 e 2003, ele foi deputado da província de Buenos Aires, depois retornou à profissão de advogado e ocupou a Secretaria de Relações Internacionais de seu partido.

Alfonsín abandonou a atividade partidária por conta da trágica morte de sua filha Amparo, e retornou em 2007, quando se apresentou como candidato a vice-governador da província de Buenos Aires na chapa do ator Luis Brandoni, que obteve o quarto lugar na ocasião.

Já como candidato presidencial, surpreendeu neste ano quando se aliou ao peronista dissidente Francisco de Narváez, candidato a governador de Buenos Aires, com quem formou a Udeso.

A aliança com um setor do peronismo dissidente lhe custou a ruptura com o socialismo.

Até então, o radicalismo já havia rompido com a Coalizão Cívica, aprofundando a fragmentação da oposição.

* matéria publicada originalmente no Portal R7

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