O'RELLY?!

O WikiLeaks e a tirada do ano

Publicado em Comentando, Mundo, Política por Caiopro em 02/06/2011

     O obituário de Julian Assange, fundador, editor-chefe e principal porta-voz do site Wikileaks, poderia se utilizar de uma piada do Saturday Night Live, mas a história do australiano Assange e dos documentos sigilosos revelados pelo site é bem séria. O Wikileaks leva o jornalismo e a comunidade internacional a questionamentos importantes sobre privacidade, direito a liberdade de expressão (e de imprensa) e, principalmente, a possibilidade de enxergar por trás das máscaras de governos que não nos contam tudo o que deveríamos saber.

Em dezembro de 2010, pouco antes da prisão de Julian Assange no Reino Unido, onde agora aguarda recurso quanto à sua extradição para a Suécia pelo envolvimento em um nebuloso escândalo sexual, o comediante americano Bill Hader acertou na mosca. Em uma imitação de Assange e também de Mark Zuckerberg, o jovem criador do Facebook (empresa cuja história ganhou um Oscar pelo filme A Rede Social), o esquete de Hader ironiza a eleição de Zuckerberg como “Homem do Ano” pela revista Time. “O Facebook ganha dinheiro para revelar suas informações que podem ser usadas por governos, eu [Assange] revelo informações secretas dos governos de graça para serem usadas por você e ele é o homem do ano” dispara Hader, em uma impressão da voz cavernosa que já é característica para a supercelebridade Julian Assange.

Hoje amarrado a uma tornozeleira eletrônica que vigia cada passo seu, Assange mal começou a batalha judicial contra, particularmente, o governo dos Estados Unidos – seu principal alvo. Desde 2006 o Wikileaks revela documentos secretos de diversos países, em especial dos EUA,para o acesso de qualquer pessoa em qualquer parte do mundo pela internet. Quem não enxerga o tamanho da virada de mesa que isso representa pode dizer que se preocupa com a privacidade do restante da população. Se é tão fácil conseguir, por meio de uma extensa rede de informantes ao redor do globo, informações sigilosas do governo mais poderoso do mundo, quem garante que as nossas próprias informações secretas e privadas também não estão sendo utilizadas arbitrariamente por alguém? Pois bem, pequeno gafanhoto, certamente estas nossas informações estão, sim, sendo usadas por alguém. E podemos colocar nessa lista os governos de nossos próprios países e também ‘hackers’ como os informantes do Wikileaks.

A diferença é que, no caso do Wikileaks, a internet agora rompe uma fronteira e tanto. Podemos vislumbrar os verdadeiros fatos por trás de diferentes acontecimentos da história, em suas versões mais oficiais, sem ter o devido credenciamento. Pode ser uma aposta perigosa, mas é uma aposta e representa um bastião da liberdade de imprensa atualmente.

Quando o Wikileaks divulgou centenas de milhares de telegramas secretos das embaixadas americanas em mais de cem países, revelou-se também a verdadeira face da diplomacia americana, da qual já se suspeitava mas não podia ser obter evidências. Os telegramas revelam, por exemplo, a verdadeira opinião das Relações Exteriores dos EUA quanto a Equador (um país onde a corrupção policial é sabida e incentivada pelo presidente Rafael Correa, na visão da embaixadora americana em Quito). Em outro caso mais recente, os arquivos secretos de todos os presos de Guantánamo também mostraram o que muitos já suspeitavam: dezenas foram presos injustamente. Agora é tudo oficial, e não versão da mídia.

E esse é o ponto principal da polêmica Wikileaks. Será que a imprensa precisava mesmo do site? É certo que, nestes cinco anos de existência, com certeza absoluta Assange e seus informantes já tiveram mais furos jornalísticos importantes que em mais de duas décadas de jornalismo internacional. Dão aula e suas revelações também trazem de volta o interesse da sociedade para os jornais impressos. Entre os beneficiados desse jogo, estão os cinco grandes parceiros do site: os jornais The New York Times (EUA), The Guardian (Reino Unido), El País (Espanha), Le Monde (França) e Der Spiegel (Alemanha).

Daí há de se questionar por quê Assange e Bradley Manning são os únicos a serem presos nessa história. Manning é o informante que revelou ao Wikileaks vídeos de helicópteros americanos abrindo fogo arbitrariamente contra um grupo de pessoas no Iraque. No ataque, crianças e dois jornalistas da Reuters morreram. O caso ficou conhecido como Collateral Damage (“dano colateral”, em alusão às declarações de generais americanos sobre a morte de civis durante a Guerra do Iraque). Como era um oficial das Forças Armadas, Manning está sendo julgado por traição em uma corte marcial americana, e pode ser executado.

Se o processo de extradição de Assange avançar e ele for mesmo condenado na Suécia, pode ser este seu destino também. Inclusive o Senado americano já estuda esta proposta, com o senador Joe Lieberman sendo um dos principais defensores da pena capital para o australiano, segundo ele um “traidor que põe a segurança nacional em risco”.

Fica difícil entender como é que um australiano, preso em Londres por determinação de uma corte sueca, pode ser um traidor dos EUA mais do que o editor-chefe do The New York Times, que publicou as matérias, ou mais do que o importante jornal The Washington Post, que segundo o Wikileaks, teve acesso ao vídeo dos helicópteros no Iraque mas se manteve calado durante dois anos.

De fato a única acusação que faz sentido contra Assange é a de que ele organiza uma agenda política própria para a divulgação de cada um destes casos. Segundo seus críticos, o Wikileaks serve apenas como um instrumento contra o poder dos EUA no mundo. Faz sentido.

Mas o Wikileaks é, mais do que tudo isso, uma dura crítica ao jornalismo praticado hoje. Foi preciso existir um site dedicado ao vazamento de documentos oficiais para que a mídia fosse finalmente atrás de casos tão importantes quanto a situação dos prisioneiros de Guantánamo, expostos a tortura que já foi admitida por autoridades americanas, ou das relações dúbias de embaixadas do país em todo o mundo.

Se realmente prenderem e matarem Julian Assange o mundo perderá um dos principais nomes desta primeira década de século 21. Perderá também a moral para exigir um jornalismo investigativo de qualidade.

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