O'RELLY?!

Outros drops do SWU: Cavalera Conspiracy

Publicado em 4:20, Comentando, Música por Caiopro em 16/10/2010

Quando em 1997 o Sepultura se separou, em meio a palavrões e xingamentos via imprensa entre os irmãos Max e Iggor Cavalera, muita gente pensou que não duraria. Mas a birra não apenas durou mais de dez anos como deixou órfãos aqui no Brasil, sem que o sensacional Soulfly de Max sequer chegasse a pisar na terrinha. Afeito aos costumes estado-unidenses, ele preferiu ficar lá pela gringa mesmo.


Podrão como sempre, Max fez a alegria da nação metal no SWU.

Tanto que quando finalmente os dois voltaram a se falar e a tocar juntos, sob o alias Cavalera Conspiracy, demorou mais dois anos até que chegassem ao Brasil novamente. Pois quando chegou a hora, todo mundo pôde lembrar por que o Sepultura um dia foi a maior e melhor banda de heavy metal do mundo. Também deve ser por que ele é muito cosmopolita (ha.. ha.. ha..) que Max passou alguns minutos falando em inglês com o público, para só depois se lembrar que estava em São Paulo.

Os jungle boys tinham, afinal, um dos sujeitos mais comédias da história do metal como seu homem de frente. Quase que um caricatura de si mesmo, Max permanece inconfundível e podrão. No SWU, festival com pretensões ecochatas e organização pouco melhor do que os já batidos e tradicionais mega-shows do Morumbi, o Cavalera acabou roubando a cena do dia mais pesado.

Com canções (?!) do primeiríssimo álbum da nova banda, homônimo de 2008, em boa parte desconhecidas pelo público diversificado do último dia de festival, os Cavalera fizeram a felicidade de muitos desavisados – auxiliados por Mark Rizzo, guitarrista também do Soulfly. A assinatura dos irmãos é incontestável, inimitável e inapelável. Principalmente quando, de brinde, ainda há tempo para ressuscitar clássicos como “Refuse/Resist”, “Attitude”, “Roots” e “Troops of Doom”.

Para quem já viu muitas vezes o Sepultura com Derrick ao microfone, assistir Max empunhando negligentemente sua guitarra para chamar as rodas e trazer gritos uníssonos de palavrões impublicáveis é uma experiência surreal e quase nostálgica. E nostalgia só seria uma definição ruim não fosse o fato de Max continuar em grande forma, inclusive com uma canção nova (“Warlords”) e apresentando as musicas do Cavalera Conspiracy com seus respectivos apelidos dentro da banda (caso de “Hearts of Darkness”, que virou “Iron Maiden” por causa da pegada NWOBHM).

Foi assim que, no sapatinho, os Cavalera voltaram ao topo. Na humildade, sem muito alarde, tocando após Yo La Tengo (WTF?!) e abrindo para o péssimo Avenged Sevenfold. Só viu quem chegou cedo e quem viu lembra bem de um dos melhores shows do ano.

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Queens of the Stone Age @ SWU

Publicado em 4:20, Comentando, Música por Caiopro em 14/10/2010

 

E o Queens of the Stone Age veio de carona fazer o show do ano...

 

Muitos foram os jêneos que descobriram que o SWU não era um festival ecológico de verdade. Parabéns pra você que acreditou na ladainha de zerar o impacto ambiental de mais de 150 mil pessoas no interior paulista, que no último dia sediou o show da banda mais importante de rock nesta virada de milênio.

Pouco me importa isso tudo: eu fui um dos que não colocou fé na publicidade e no caos de Rage Against the Machine e Los Hermanos num mesmo dia. Ecochatos, unidos, jamais sairão da fazenda Maeda. Só compareci ao último dia do festival para prestigiar um dos últimos gênios do rock’n’roll, em parte pela dor no coração que me causava a idéia de perder um dos shows pelo qual mais aguardei nos últimos anos.

Josh Homme é o cara que em pouco mais de uma década deu o gás que faltava ao rock americano, ofuscado pela onda do revival sem graça capitaneado pela Grã-Bretanha. As nuances sonoras do Queens of the Stone Age fizeram a vida sonora de minha trilha desde Rated R.

Como as miragens que se formam sobre o asfalto quente do deserto californiano, o QOTSA fez um show embriagante no último dia de SWU. Após o incômodo atraso de mais de uma hora para o início, sem precedentes no festival (um mérito e tanto no Brasil), Homme & amigos fizeram um show para agradar fãs de não tão longa data quanto eu – catando de carona a molecada que foi ver Linkin Park mais tarde e os indies marmanjões que foram chorar assistindo ao Pixies.

Curto, com meia hora a menos do que o programado, a banda tocou poucos hits e muito dos dois últimos álbuns (Lullabies for Paralyze e o sensacional Era Vulgaris). Pouco para quem devia uma visita com quase 10 anos de espera e com o título de headliner moral.

Homme, empunhando uma coleção invejável de guitarras vintage e com os cabelos aparentando bem mais a idade do que em sua última passagem pelo Brasil (em 2001, no Rock in Rio em que o ex-parceiro e baixista da banda Nick Olivieri foi preso por tocar nú) não se intimidou pelo público gigantesco de cerca de 50 mil pessoas. Acostumado a encabeçar os grandes festivais de verão europeus, fumou e guardou seus cigarros acesos nas cordas da guitarra ao maior estilo Keith Richards.

Nem por isso faltou fôlego nas canções mais novas como “In My Head”, “3s and 7s” e “Sick, Sick, Sick”. Também sobrou espaço para as já clássicas “No One Knows” (penúltima), “The Lost Art of Keeping a Secret” e “Feel the Good Hit of the Summer” (a edificante abertura). Mesmo assim, começou morno e foi ganhando força conforme o público ajudou a criar a sensação mais comum dos grandes shows: quando todo mundo pula junto e o chão vira canelas alheias. Não teve tempo, no entanto, para outras bastante aguardadas por parte do público como “Avon” ou “Regular John”, do primeiro disco (homônimo).

Valeu também pela simpatia de Homme, sempre com um certo senso de humor ao anunciar as canções do setlist: deixando fluir a noite em “Go with the Flow” e duvidando se alguém conhecia “No One Knows” (que bate cartão em qualquer noitada roqueira).

E se você ficou com a pulga atrás da orelha para entender que diabos foi aquilo, o Multishow exibiu na íntegra e dá pra baixar aqui.

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Financiamento de campanhas

Publicado em Comentando, Política por Caiopro em 05/10/2010

Este é um texto que escrevi para o curso de Realidade Socio-econômica e política brasileira – então não liguem que ele seja, talvez, um assunto meio chato

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Dizem que a hipocrisia é a opinião dos covardes. Nada mais justo para qualificar a opinião hipócrita de que no Brasil existe um sistema democrático de eleições aos cargos públicos.

A verdade é que o montante de dinheiro que circula nestas campanhas evidencia o gigantesco abismo da desigualdade social no país, e põe em evidência os interesses econômicos que regulam o Brasil na base do “quanto pior melhor” e a necessidade urgente de se realizar as tão discutidas reformas políticas e tributárias empilhadas desde a redemocratização.

No Brasil, o custo de campanha para a eleição de um deputado ou senador é comparável ao custo da eleição de um cargo similar nos Estados Unidos. Isso se não levarmos em consideração o gasto com publicidade em TV e rádio, lá pago e consumidor da maior fatia de gasto de campanha; aqui gratuito e garantido por lei.

Sendo assim podemos deduzir sem muitas dúvidas que a eleição de um político brasileiro é bem mais cara do que a de um cargo no congresso americano – vamos combinar que por menos trabalho também.

Isso acontece por causa do modelo de eleição feroz que figura no país. O sistema eleitoral de representação de lista aberta incentiva um pleito individualista, de competição acirrada entre candidatos de uma mesma chapa à um cargo público.

Com o enfraquecimento das coligações partidárias, que contam às vezes com mais candidatos a deputado do que cadeiras disponíveis, o sistema passou a favorecer uma campanha corrupta de troca de favores em troca de financiamento, uma vez que o financiamento público vindo do fundo partidário não dá conta da alta competitividade vigente na corrida eleitoral brasileira.

Resumindo, o sistema favorece a gastança na medida em que permite a candidatura de gente demais a um mesmo cargo e enfraquece a sigla partidária e plataformas campanha de colaboração.

Isso nos leva ao ponto: o financiamento privado de campanhas no Brasil, uma área de tons cinzentos. Os valores são ilimitados e ninguém precisa acreditar nos valores declarados. Em vez disso, você poderia logo se contentar em ter a certeza de que são todos adulterados.

Empresas têm tido um papel fundamental nos rumos do país desde a redemocratização, financiando campanhas com valores exorbitantes que chegam até a R$ 200 mil reais para um único candidato.

Empreiteiras, siderúrgicas e até setores proibidos de doar dinheiro a candidaturas, como os sindicatos, vêm torrando onças e bancando a eleição de candidatos ligados a seus interesses comerciais. Ao mesmo tempo, existe um gigantesco abismo entre os pleiteantes de esquerda e direita.

O porque disso, considerando tantos recentes episódios escandalosos de corrupção e favorecimento de empresas em licitações governamentais, é bem óbvio: quem financia esses candidatos pede retorno, todo mundo ali tem rabo preso com alguém que o colocou lá indiretamente.

Por outro lado, a idéia de se implantar o financiamento estritamente público para as campanhas eleitorais no Brasil é condenável. Do ponto de vista prática, na verdade já figura no país um modelo que encaminha um grande montante de dinheiro para os partidos, através do fundo partidário (retirado de um percentual do imposto de todos os contribuintes).

Além do fundo partidário, há também os horários eleitorais gratuitos de televisão e rádio – garantidos por lei e com tempo dividido proporcionalmente entre todas as coligações.

Uma das justificativas dos que são a favor de implantar um sistema totalmente financiado por dinheiro público seria combater o uso de caixa dois e influência de setores privados no pleito.

Mas a verdade é que mesmo com as recentes emendas propostas, de se aumentar o percentual de imposto destinado ao fundo partidário, é impossível acreditar que isso inibiria o uso de caixa dois.

Mesmo com esses aumentos, o dinheiro ainda seria pouco para a quantidade de candidatos e só criaria um novo empecilho: um crescimento ainda maior do uso de caixa dois nas campanhas eleitorais. Muitas empresas também utilizam caixa dois de forma costumeira, principalmente por causa da grande carga tributária no país.

Com os exemplos de corrupção que encaramos quase todos os dias, é de se imaginar que tampouco os políticos deixariam a prática. Não enquanto não houver uma real fiscalização dos custos e doações de campanha e incentivos para a transparência no poder público.

Indo mais além na idéia de financiamento público, é possível prever que o fortalecimento dos partidos iria também desfavorecer imensamente muitos candidatos e mesmo regiões inteiras para a estratégia de um partido em eleger cadeiras. Seria a definitiva volta do coronelismo.

Somente com uma reforma substancial nas legislações tributária e bancárias do país nós poderíamos vislumbrar uma mudança nesse cenário de corrupção generalizada e gastos nebulosos com a eleição de candidatos de índoles cada vez mais duvidosas.

A idéia de continuar com um sistema misto de financiamento público e privado depende destas reformas, na medida em que incentivasse empresas a quererem veicular seus nomes a candidatos e plataformas políticas – hoje elas as fazem às escuras, escondidas da população e através do tal maldito uso de dinheiro não declarado.

Para conter essa gastança, apenas aprovando penas mais pesadas para crimes eleitorais e declarações fiscais de candidatos e empresas e aprovando tetos gerais para a doação de dinheiro a campanhas.

Dessa forma, em tese, diminuiríamos a importância do dinheiro nas corridas eleitorais e criar iria condições mais igualitárias de concorrência. Poderíamos somar a isso, uma reforma política que não só diminuísse o número de candidatos (como por meio de eleições distritais ou primárias) mas também resolvesse questões polêmicas como o quociente eleitoral.

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Publicado em Comentando, Música por Caiopro em 30/09/2010

Demorei demais a escrever sobre a apoteótica apresentação do Dinosaur Jr. em São Paulo. Pela primeira vez no Brasil, os ingressos para as duas noites no (tá bom, nem tão) minúsculo Comitê Club da rua Augusta se esgotaram em pouquíssimo tempo.

Era grande o aperto em perder o show de uma das bandas mais four-twenty de minha geração anos noventa, que teve em Rage Against the Machine seu Led Zeppelin e em Dinosaur Jr seu Beach Boys eletrificado e altíssimo.

Por sorte para os procrastinadores como eu, a Adidas (olha o merchan…) realizou a idéia do ano: Dinossauro Júnior pela primeira vez no Brasil e de graça na esquina do Milo (opa). Rapidamente disseminado pelo twitter, o anúncio já fez história entre meus tweets favoritados e levou uma pequena multidão para o evento de skateboard e música patrocinado pela marca esportiva.

E o power-trio de J. Mascis e Lou Barlow (não lembro o nome do baterista, irrelevante a essa altura) não só não fez feio como fez muito bonito num pocket-show de aproximadamente 30 minutos. Com som alto, apesar do palco minúsculo e espaço reduzido numa pracinha situada no fim da Av. Paulista (após a rua da Consolação), os três tocaram cinco musicas escolhidas a dedo pelo próprio publico presente.

A começar por “The Wagon” faltou pouco para ver a marmanjada chorando e sobrou espaço para se sentir com 15 anos de idade contra o sistema (ah, a doce ironia das boas ações de marketing). Ainda teve “Feel the Pain” e “Freak Scene”, e foi o suficiente para dar o gostinho pra quem não conseguiu ir ao verdadeiro negócio que rolaria na mesma noite. Mas valeu a pena para ver a única banda que pode se gabar de ter tido discos recolhidos por volume excessivamente alto até hoje. E pra imaginar esse volume num lugar pequeno como o Comitê.

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A boa ditadura

Publicado em Livros, Política, Resenhas por Caiopro em 27/09/2010

Da presunção à convicção do absoluto: este é o passo da democracia ao fascismo, percorrido diversas vezes na América Latina. O caminho que vem sendo traçado na Venezuela, no entanto, merece atenção especial – e inflama anacrônicos debates entre “direita” e “esquerda” do mundo inteiro.

Gilberto Maringoni, professor da Cásper Líbero, dichava a história recente do vizinho

Gilberto Maringoni, jornalista e doutor em História pela USP, faz uma reflexão importante sobre o processo político do país em A Venezuela que se inventa: poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez. Felizmente ele abre o jogo desde o início, ao se apresentar como um defensor da revolução chavista, e nos poupa de questionar qualquer tipo de isenção.

Trata-se de um livro com um certo viés panfletário, mas que não deve ter seu valor reduzido a tal graças ao minucioso processo de apuração do jornalista, que entrevistou muitas das figuras-chave da história recente do país.

É compreensível o partidarismo do autor, em se tratar de um pequeno país caribenho sem grande relevância internacional até o período contextualizado no livro, quando ruiu o castelo de cartas do poder local.

O país era dominado por oligarquias políticas e grupos empresariais de comunicação, até a eleição de Hugo Chávez virou a Venezuela de cabeça pra baixo. Reformas e crescimento econômico vieram ao mesmo compasso da perseguição política, censura e fechamento de vários meios de comunicação.

Por outro lado, nada disso parece tão grave para a população, conforme os índices de aprovação de Chávez (e a possibilidade de múltiplas reeleições) continuam a todo galope. A Venezuela, enriquecida pela exportação de petróleo e uma falsa valorização no câmbio tem, como o Brasil, um dos mais graves índices de desigualdade social do mundo.

A Venezuela é exemplo de um país que viu sua democracia esvaziar-se de sentido: na eleição que legitimou Chávez, a outra candidata era uma ex-Miss Universo.  Hoje, o país vê e aceita o bolivarianismo como uma nova via, com grande incentivo e manifestações populares a favor do presidente, além de crescimento econômico e visível melhora na qualidade de vida.

O livro-reportagem de Gilberto Maringoni passa a limpo a história política do país. Contextualiza os eventos que antecederam o atual momento venezuelano, contando com bons entrevistados e franqueza pessoal para opinar sobre os fatos. O estilo corrido do texto do autor também ajuda a vencer mais de 20 anos de história em 248 páginas.

Mas espanta o viés politizado do jornalista ao tratar da Venezuela, conforme vemos cada vez mais figuras importantes endossando a investida chavista e sua maneira gramcista de obter mais poder: a desqualificação da mídia “golpista”, seguida pela legitimação de novos meios de comunicação sob chancela partidária. É o passo da convicção absoluta, aquela que não se dá bem com vozes dissonantes.

veja bem...

Não que este seja o caso do Brasil que caminha para o desenvolvimento, às portas das eleições de uma bancada de absoluta maioria governista e que vê aqueles jornais e revistas mais populares, e bisbilhoteiros, como inimigos. Me faz pensar: em que a Venezuela é tão diferente mesmo?

Arquétipos da realeza

Publicado em Arte, Comentando por Caiopro em 23/09/2010

Clouet declama a tinta óleo as tragédias gregas da corte francesa

Tudo bem que a França não é a Itália, com vários territórios anexados no período que antecedeu as Guerras Italianas e que se livrou do domínio francês poucos anos antes da execução deste painel, mas o Renascentismo Francês também exibe os traços decadentes característicos dos movimentos românticos que sucederam a Alta Renascença.

 

"O BANHO DE DIANA" de François Clouet (França, 1559/1560)

 

Os movimentos pré-modernos que inauguraram o período romântico tiveram como inspiração justamente a decadência das instituições de poder, num quê de rebeldia e retrato da história.

Em O Banho de Diana, Fraçois Clouet ilustra esse sentimento ao retratar ambiguamente a cena mitológica narrada por Hesíodo. A peça, dizem, seria uma alegoria da morte do rei Henrique II e seus amores, intrigas e traições.

De fato, a obra ficou popular o suficiente para ter uma série de cópias datadas do mesmo período, espalhadas por outros museus do mundo todo – provavelmente versões produzidas por seguidores de Clouet.

Ao observar a tela notamos que a técnica empregada é suave, de pinceladas coordenadas e grande respeito a anatomia humana. Apesar das cores vívidas, o tom é um tanto monocromático.

O painel ilustra, como numa arte seqüencial, o mito de Artemis (Diana para os romanos) e o caçador Acteão. O mortal, criado por um centauro e grande predador é tímido e tem pouco contato com outros humanos. No entanto quando ele vê a bela, e irrevogavelmente virgem, Artemis banhando-se em uma fonte ao lado de três ninfas, não resiste em espiar.

Ao perceber que está sendo observada por um homem, Diana o amaldiçoa transformando-o em um cervo, que termina caçado pelos seus próprios cães, também enfeitiçados pela deusa da caça.

Na obra, notam-se portanto três momentos do mito. À direita do quadro, vemos Acteão a cavalo, seguido por um cão, percorrendo uma trilha. Ele é o único que está vestido, e suas vestes não lembram nem um pouco as vestimentas normalmente utilizadas nas pinturas neoclássicas. Este é um dos argumentos que reforçam a teoria de que Acteão é um retrato de Henrique, o rei da França morto no mesmo ano de conclusão desta pintura.

Em primeiro plano, mais ao centro, o banho de Artemis é guardado por sátiros, figuras já normalmente maléficas nas obras de cunho mitológico e que, neste exemplo, guardam expressões faciais de raiva. Diana é a mulher mais ao centro, sendo coberta pelas ninfas. E ali, meio escondido, no canto mais escuro do painel, vemos o corpo do cervo sendo devorado pelos cães.

François Clouet foi o pintor real da corte de Henrique e sucessor de seu pai, Jean Clouet – retratista da corte de Francisco I, finado patriarca real.

Através de sua arte, ele fez uma homenagem a quem, talvez, considerasse um bom rei. Como um poema triste, uma espécie de égide, o artista compara personagens da vida pública a uma tragédia grega.

Muitos estudiosos afirmam categoricamente que a Diana representada em O Banho é, na realidade, Diana de Poutiers, amante de Henrique. Isso é dito com base em diversos retratos da cortesã, a favorita do rei, feitos pelo próprio Clouet ao longo de muitos anos.

Aliás, o rei nunca desligou seu nome de Diana que, 20 anos mais velha, durante um tempo lhe servira como uma espécie de tutora. Henrique, o cavaleiro Acteão, era um homem fechado. Isso se devia aos anos que passou na prisão, ainda criança, e de onde só saiu aos 12 anos de idade já para se tornar rei. Nestes anos anteriores à maioridade, ele foi chancelado por Diana servindo como uma espécie de madrasta.

Tal como Acteão, Henrique foi um rapaz judiado pela vida e com dificuldades de socialização, que terminou sua vida consumido pela sedução de forças maiores que ele, como a vontade pela caça, mulheres e pela guerra.

Casado com Catarina de Médici, uma burguesa florentina, o rei nunca pôde viver seu amor por Diana, mesmo morrendo já velho, durante um despretensioso duelo de esgrima no qual teve seu elmo acidentalmente perfurado pela lâmina adversária.

Diana é, tal como a deusa Artemis, inalcançável mesmo para um rei do poder de Henrique II.

Catarina, a rainha, seria a ninfa à esquerda de Diana, a única que possui uma expressão menos próxima à de tranqüilidade. É uma expressão de suspiro, de dor ou algo anterior ao choro. Talvez por nunca ter tido a preferência de seu marido, ou talvez chorando pela sua morte acidental.

Nesta mesma concepção acerca do painel, os sátiros em questão seriam os tios de Catarina, da parte da família burguesa e não-nobre italiana que, na visão de Clouet, se regozijavam pela morte de Henrique – prevendo melhores negócios para suas famílias, com uma parente no trono.

Vê-se que a obra possui muitos significados e leituras, o que garante seu lugar na fileira de obras-primas de um período fértil, ainda que melancólico, da arte ocidental.

As obras maneiristas, cheias de firulas e subjetividade, de artistas italianos, alemães, franceses e todos mais que beberam da fonte renascentista, contribuíram para um grande questionamento pela sociedade da época.

Graças à mudança do pensamento europeu, a construção de estados e reinos soberanos e a liberação econômica, pudemos questionar as ordens sociais, estéticas e espirituais da nossa civilização.

É por isso que admiramos a beleza da tragédia e da desconstrução de mitos em parábolas sobre os arquétipos humanos, como os construídos por Clouet em O Banho de Diana (em exposição rotativa do acervo do MASP).

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Resenha de “Crime & Castigo”, livro-reportagem de Zuenir Ventura

Publicado em Livros, Resenhas por Caiopro em 27/07/2010

 

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PARCIALIDADE PASSIONAL

Zuenir Ventura faz do jornalismo um mea-culpa de uma tragédia nacional

As diretrizes de um ‘bom jornalismo’ indicam que o profissional deve primar pela isenção, além de passar horas a fio com seus perfilados… Mas e quando seu personagem é  assassinado brutalmente, em meio a uma luta para a qual um país inteiro virara as costas nos anos que se passaram? Zuenir Ventura abandonou a cartilha para se dedicar a contar uma história que corria o risco de ser esquecida.

“Chico Mendes – Crime e Castigo“ é um relato um tanto quanto passional realizado pelo renomado jornalista, uma compilação das matérias feitas para um especial do Jornal do Brasil.

Ao longo dos fatos narrados pelo autor, um perfil do líder seringueiro e de seus assassinos é traçado a partir de relatos de terceiros e do próprio Zuenir. Pode não ser tão desafiador para um jornalista, mas torna o trabalho mais perigoso na medida em que se distancia de um ideal jornalístico.

Além de coletar depoimentos e entrevistas a cerca da morte de Chico e dos conflitos existentes no Acre, o autor presenciou acontecimentos que o fizeram testemunha ocular.

Felizmente, Ventura dribla as dificuldades tomado por um feeling, uma capacidade e tanto, certamente adquirida nos anos da prática jornalística, de ler as pessoas e de sentir a atmosfera daquele Acre tomado de medo e revolta dos derradeiros anos da década de oitenta.

Zuenir chegou ao Acre apenas oito dias depois do assassinato do líder que lutava contra a devastação da Amazônia. E a partir daí iniciou a série de reportagens que deu origem ao livro. Na primeira parte da narrativa, homônima e organizada como no clássico russo, sob o título de “O Crime”, é reconstituído o assassinato de Chico por meio de fortes relatos de violência e ameaças.

Ao passo em que reporta os fatos, o jornalista nos apresenta ao clima de faroeste amazônico, num ritmo imposto pouco a pouco, quando ainda possuía uma ponta de insegurança em suas opiniões. Cadenciando sua narrativa e pegando mais pesado nas descrições de seus personagens com o decorrer da confirmação de suas suspeitas.

Neste ponto talvez Zuenir Ventura tenha percebido a semelhança entre a realidade que vinha vivenciando e a relatada por Truman Capote em A Sangue Frio.

No entanto, o clima revanchista em torno do julgamento Darci e Darly, os matadores de Chico Mendes, não teve o mesmo efeito sobre Ventura que o sobre Capote, tendo o brasileiro se contagiado pelo sentimento de justiça ao invés da compaixão para com os assassinos sentida por Capote em seu clássico do new journalism norte-americano.

Zuenir Ventura fica chocado com as condições de vida no lugarejo de Xapuri, local do crime: um ambiente muito distante dos meios importantes e de alto escalão que costumava freqüentar na época. A miséria do lugar e o manancial de provas que apontavam para os acusados (como o fato de Chico ter, inclusive, denunciado o dia de seu assassinato) colocaram em xeque a consciência de um jornalista que se viu diante uma realidade que, talvez, ele pudesse ter relatado antes – quem sabe ‘evitado o pior’.

Aceitar integralmente o ponto de vista dos partidários de Chico Mendes também pode tê-lo ajudado a traçar o perfil do líder. Mas mesmo que ele estivesse ‘sendo levado pela situação’, ao menos o repórter teve a oportunidade de extrair o máximo de franqueza possível de seus entrevistados, sem se abster de criticar o que considera defeitos morais do personagem – como sua relação poligâmica.

Tão passional quanto os relatos de “O Crime”, “O Castigo”, a segunda parte do livro, que descreve o julgamento dos criminosos (ocorrido dois anos depois), é o fato que Zuenir Ventura adotou a tutela de Genésio – o adolescente única testemunha e marcado de morte.

À relação entre o título do livro-reportagem e o clássico de Feodor Dostoievski cabem reflexões ao ler o retrato de uma realidade dentro do Brasil, mas que tão poucos conterrâneos puderam se dar conta em tempo.

Assim como Raskolnikov, personagem do autor russo, Ventura se viu perdido em um dicotômico dilema: o que diferencia os homens ordinários dos excepcionais, dos heróis e tiranos, dos oprimidos e dos fortes. Afogado em sua própria consciência, exposto em um relato que nos evidencia uma culpa moral de toda imprensa, em não ter coberto o caso antes e com a devida atenção. Um sentimento compartilhado por todo o país.

Pode ser injustificável, mas Ventura de certa forma tenta se justificar tomando partido abertamente.

Mas não faz mal nisso, pois é que o faz se dedicar de corpo e alma a uma matéria seminal, a fim de confirmar sua participação para melhorar a sua própria história e fazer justiça com a própria máquina de escrever.

Resenha de “Abusado”, livro-reportagem de Caco Barcellos

Publicado em Resenhas por Caiopro em 27/04/2010

 

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O HABEAS-CORPUS DO CRIME

Caco Barcellos escreve brilhantemente sobre a realidade do tráfico de drogas no Rio de Janeiro, mas ficar em cima do muro sempre pende para algum lado

Até que ponto vai o poder da mídia, ou de um único jornalista, em condenar ou inocentar pessoas? Abusado, do jornalista global Caco Barcellos, nos embute essa reflexão a partir da história quase biográfica de Marcinho VP – o “dono” do morro Dona Marta e um dos cabeças da facção criminosa Comando Vermelho.

Abusado é ótimo enquanto livro-reportagem, trazendo uma linguagem invejável a até mesmo nomes como Tom Wolfe e Truman Capote graças a abordagem intimista e, em alguns momentos, cúmplice que consegue junto a seus personagens centrais – o tráfico, seus chefes e suas vítimas.

Por isso mesmo Caco peca em alguns aspectos. É condescendente com VP, pintando no traficante uma imagem que não lhe pertence completamente. O trata como um mártir, abusado por uma sociedade que o esqueceu. De fato ele é um “outsider” ao estilo Les Miserábles de Vitor Hugo. É um personagem rico, triste e, acima de tudo, forte e excluído.

No entanto, ao colocá-lo como vítima e um idealista (coisa que não é bem verdade) Caco o eleva a um patamar que não lhe pertence. E o pior é que o sucesso do livro-reportagem, brilhantemente redigido por sinal, tornou a abordagem erótica da pobreza e violência do Rio de Janeiro e do Brasil como um todo, uma tendência na literatura e no cinema brasileiro atual.

Como uma espécie de mentor dos Cidade de Deus e Tropa de Elite mais recentes, Abusado faz bem em não traduzir ou elitizar declarações desses marginais da sociedade. Deixa a cargo do leitor entender este mundo tão próximo e tão diferente da classe média ao qual se dirige com verbos mal conjugados e expressões bem cariocas e cheias de erros de ortografia.

No entanto, mesmo com o distanciamento proposto por Caco nas páginas iniciais do capítulo “Adeus às Armas”, em que admite a dificuldade de se escrever sobre um mundo criminoso sem fazer apologia, o autor deixa de lado a posição de narrador onisciente ao partir para uma condição de personagem-repórter.

Vide José Padilha em Tropa de Elite, filme que vai na contramão de Abusado ao retratar a rotina da polícia mais brutal do Rio e sua visão sobre a classe-média e o tráfico. Fica difícil assumir uma posição de ‘em cima do muro’ sem que esta se torne meio falsa, desprezando suas próprias capacidades narrativas e críticas. Ou vai ou fica, ou quebra ou racha.

 

foto do jornal Extra mostra o morro Dona Marta dos anos 80

 

Isso fica ainda mais estranho no livro em questão, após Caco ter passado quase 400 páginas retratando Juliano/Marcinho VP como um herói dos pobres nos dois capítulos iniciais da obra. Para Caco, parece que os crimes de Marcinho VP nunca são tão graves quanto os das gangues rivais, sempre mais violentas e injustificadas.

Marcinho também é mostrado como um sujeito letrado e preocupado com o bem-estar social de sua comunidade, o que soa hipócrita quando nos é mostrada a situação de suas mulheres e filhos – que continuam os mesmos miseráveis de antes, mesmo com a riqueza e o poder obtidos por VP com o crime organizado.

Talvez isso seja por que, conforme o andar da reportagem, Barcellos se tornou mais próximo de seu personagem – talvez por uma questão de auto-preservação, para que não ‘pegasse mal’ com sua fonte.

Fosse ele um Dr. Hunter S. Thompson, sem critérios mundanos, sem resquícios de moral e bons costumes e sem senso de imparcialidade e noção da realidade, o livro fosse mais interessante – com Caco Barcellos adentrando no real mundo do crime sem medo do que isso faria a sua reputação. Apologia por apologia, tudo é a mesma coisa.

Tudo isso nos leva a pensar sobre a condição que o próprio Marcinho VP já havia adquirido antes mesmo do livro ser lançado. Marcinho é uma celebridade do submundo da cultura brasileira, aquele ligado intimamente aos nossos podres e falhas morais. Tem em sua biografia passagens surreais, como ter ‘autorizado’ Michael Jackson a filmar um videoclipe na comunidade.

Que tipo de status a mídia pode exercer sobre a imagem pública de alguém? A fama é um habeas corpus? Quem tem fama pode tudo? Hunter Thompson, Lester Bangs e outros papas do new journalism e do gonzo, a quem Caco Barcellos bebe da fonte, diriam que sim. Abusado nos leva, em alguns momentos, a concordar.

Mas talvez a própria beleza do livro esteja em suas falhas morais, que nos permitem ainda mais a refletir sobre a realidade e o cotidiano do brasileiro real. Aquele que da pobreza de sagra campeão, que dos erros se torna modelo, aquele que acredita que não existe pecado imperdoável abaixo da linha do Equador e que os fins justificam os meios.

Resenha de Wolfmother, Cosmic Egg

Publicado em Música, Resenhas por Caiopro em 11/11/2009

NOSTALGIA, GUITARRAS E MAMÃES ROQUEIRAS

O Wolfmother é o That 70s Show do rock moderno. Dito isso vamos olhar para Cosmic Egg da forma que ele deve ser visto – é sim uma descarada tentativa de emular os ídolos de Andrew Stockdale, o frontman e único membro remanescente do primeiro disco da banda.

Wolfmother Cosmic Egg

Wolfmother, Cosmic Egg (DGC/Interscope/Modular, 2009)

Stockdale é o tipo de adolescente que cresceu querendo ser o Jimi Hendrix. Toda a nostalgia alheia, comum no rock atual, se infiltrou em cada trejeito do guitarrista.

Fingindo que vive em 1972 e seguindo os passos de Hendrix do Experience ao Gypsys Band, Andrew Stockdale se recusou a encerrar as atividades após a deserção dos outros dois membros, quais os nomes são irrelevantes tão irrelevantes quanto os de seus substitutos a esta altura.

Tudo bem que havia um ótimo baixista/tecladista, como visto no DVD da tour da banda, Please Experience Wolfmother Live. Mas a mamãe-lobo é mesmo um cabeludo vestido como uma velha (cheio de panos psicodélicos enrolados no pescoço, cabeça, antebraço..) e o segundo trabalho do Wolfmother supera o disco de estréia por conseguir ser mais organizado.

As ideias sabbatianas já começam logo na primeira faixa, “California Queen”, uma das melhores e que tem uma pegada bem viajandona. “Sundial” traz uma parede de som do naipe Deep Purple, mas flerta com alguns riffs meio Soundgarden também, e ainda há tempo para para Stockdale mostrar uma  balada roqueira cheia de tesão em “White Feather”.

Se no primeirão, Wolfmother, a banda parecia jogar várias referências do pré-metal como tinta arremessada num Pollock abstrato, em Cosmic Egg as coisas estão mais redondinhas e sem mudanças de clima tão bruscas quanto as de “Dimension”. Fica o exemplo da última faixa, “Violence of the Sun”, onde o vocalista encarna Ozzy mais uma vez, acompanhado de um piano que dá gravidade a toda a barulheira ao redor.

Peraí, peraí. Mas isso era o legal do primeiro disco! A forma como um tecladão de DP e os riffs arrastados e em sintonia com o vocal berrado eram combinados de um jeito meio nada a ver, com cara de tiração de onda. Bom, um dos méritos deste segundo álbum é ser totalmente diferente e ao mesmo tempo indiscutivelmente um disco com a cara do Wolfmother. O jeitão psicodélico, pesado e conduzido por riffs marcantes. Tudo isso continua lá, para provar que o cara não é tanto a criança problema do AC/DC mas sim que pode ser a mamãe roqueira de uma geração que ainda está na encubadora.

Isso é por que a cara do Wolfmother é este frontman meio lunático, meio wannabe, meio fora de lugar tipo aquele cara do The Darkness. Mas onde o The Darkness falhou o Wolfmother vem se saindo muito bem – resgatando uma forma mais crua e agressiva de rock’n’roll, próxima dos clássicos e longe o suficiente do stoner metal pra ser uma coisa totalmente única – mesmo soando tão clichê.



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O papa-líder

Publicado em Comentando, Futebol por Caiopro em 19/10/2009

Domingo, contra o Palmeiras, o time de Andrade mostrou do que se fazem campeões – ou pelo menos como se desmontam favoritos. Vindo de uma bela vitória contra o São Paulo na semana anterior, o Flamengo mostrou garra e tranquilidade para desfazer o sistema tático de Muricy já no primeiro tempo.

Bem postado com três volantes, o rubro-negro entrou no jogo já sabendo o que fazer para segurar o líder do campeonato em seu próprio terreno. Usou e abusou dos contra-ataques e da marcação cerrada em Diego Souza por Toró e Williams. Assim o armador alviverde não conseguiu respirar, sempre com um urubu fedendo no seu cangote, e seguiu apenas se irritando, até levar um cartão amarelo por meter a mão na cara de Toró.

Petkovic trucidou, jogou muito e provocou mal-estar para os que acabou humilhando

Petkovic trucidou, jogou muito e provocou mal-estar para os que acabou humilhando

Enquanto isso no lado palmeirense, sobrou Edmilson tentando conter Petkovic em tarde inspiradíssima. Muito tímida, a marcação do ex-seleção brasileira apenas olhou Pet tabelar com Juan na entrada da área, ignorando três zagueiros palmeirenses para marcar um gol de placa. Passou Edmilson e mais um, dois jogadores e chutou, prestes a ser travado, no último momento restante, bem no cantinho de são Marcos. Indenfensável.

Daí pra frente o Flamengo passou a controlar as ações. Se havia levado sufoco do Palmeiras nos 2o minutos iniciais, com um belo chute de Vagner Love para defesa, como sempre, ornamental de Bruno e também com uma cabeçada que só não entrou por detalhes com o goleiro flamenguista já vendido no lance, agora o Flamengo apenas contia o verdão que jogava de azul.

No ataque do Fla, Adriano e Zé Roberto bem que tentaram. O Imperador esteve muito marcado, mas foi esperto em sempre procurar atrair a marcação – na verdade parecia cansado, talvez pelos jogos da seleção brasileira. Enquanto isso Zé Roberto corria corria e nada, mas não faltava disposição e sim mira.

O segundo tempo começou com um Palmeiras nervoso, tentando igualar mas que acabou sufocado pelo forte meio-campo flamenguista. Vagner Love era o único que mostrava algum futebol lá na frente, com Diego Souza e Cleiton Xavier sob forte marcação de Williams e Maldonado. Mas a tarde era mesmo de Pet.

Os comentários na presente torcida rubro-negra eram sempre algo como “meu, olha isso!”. É que o sérvio abusava da beleza nos lances, tocando de lado com categoria e puxando desde os primeiros minutos da segunda etapa os primeiros gritos de ‘olé’. Gritos esses que se intensificaram após um bizarro gol olímpico! Ronaldo Angelim tentou desviar, a zaga do Palmeiras furou e Marcos ficou sem reação. Gol, golaço, gol estranho mas agora Petkovic se tornava o jogador em atividade com o maior número de gols surgidos diretamente a partir de um tiro de canto.

A categoria foi tanta que deixou um mal estar entre os alviverdes, nervosos pela segunda derrota seguida e a queima de gordura lá na ponta de cima do campeonato. Viam agora Flamengo, Atlético MG e Inter colando junto. Sorte a deles que os gaúchos foram fanfarrões e não conseguiram atropelar o Fluminense, como era o esperado.

Diego Souza reclamou após a partida de Petkovic. Disse que não precisava jogar bonito quando o outro time estava perdendo, mas é um mau esportista. O Flamengo continou superior e dominando todas as ações, com bela partida de Léo Moura – incluindo uma guerreiríssima tomada de bola na lateral direita da defesa, bola que ele havia perdido e recuperou na corrida e na técnica. Aírton, que quando não entra pra quebrar a perna de alguém joga muita bola, fez excelente partida. É sábido que o xerifão Álvaro, que não jogou, tem tido uma ótima influência sobre o garoto.

Após o segundo gol, Andrade ainda colocou Fierro. O chileno jogou bem e deu um lindo chapéu em C. Xavier em determinado momento, trazendo uma saída de bola melhor para o mengão que contra-atacava sem parar. Não marcou o terceiro graças ao travessão de Marcos, após chute do meio da rua de Zé Roberto.

No finalzinho, aos ’42, um estranho penalti marcado pelo árbitro que Vagner Love isolou por cima do gol. Existe uma estranha relação entre as trancinhas, camisas azuis e penaltis cobrados em direção à lua. Love, que é mengão, talvez possa explicar melhor.. e aos gritos de “o Love é do mengão”, o atacante palmeirense se lamentava a cada nova oportunidade perdida ou que Bruno salvava com fé e golpes de vista.

E sob os gritos de ‘olé’ e ‘chiqueiro, silêncio no chiqueiro’, Petkovic continou esculhambando o time inteiro, liderando e fazendo lindos passes e aberturas de contra-ataque. Foi assim que terminou um jogo que muda todo o campeonato, agora com Atlético a apenas 4 pts do líder e Flamengo numa ótima sequência, que já vem ganhando hype e falatório de Márcio Braga. Vamos manter a calma e chegar junto, domingo é a vez do Botafogo.

Mengão sempre!

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Choke – Resenha de ‘No Sufoco’

Publicado em Cinema, Resenhas por Caiopro em 08/10/2009

A segunda adaptação para o cinema de Chuck Palahniuk não vai te engasgar e vai, até que desce redondo

Apesar do que aponta o poster, você definitivamente não vai se engasgar com as garotas aqui mostradas

Apesar do que aponta o poster, você definitivamente não vai se engasgar com as garotas aqui mostradas

Se tem uma coisa que Chuck Palahniuk faz melhor que qualquer outro autor de ficção atualmente é construir personagens constrangedoramente perturbados. Tyler Durden, o alter-ego de um simples corretor de imóveis em Clube da Luta, fica na poeira perto de Vitor Mancini.

Nosso anti-herói em Choke – No Sufoco é um viciado em sexo. Um doente que ainda por cima dá golpes, extorquindo dinheiro de suas vitimas através da conquista de seu amor incondicional. Para isso ele apenas se engasga propositalmente, deixando suas vitimas na posição de realizar o ato heróico que sempre sonharam. Será para sempre seu troféu.

A versão para o cinema de No Sufoco é a segunda adaptação de um livro de Palahniuk. Estreou sem grande entusiasmo no festival de Sundance, em Sydney no ano passado, mas não se engane!

A bizarra história de Mancini, que eventualmente descobrirá ser um meio-clone de Jesus (long story short) se desenrola sutilmente no livro. No filme nem tanto, mas o ritmo rápido e cheio de humor negro salva o enredo e te mantém atento, entre curtas ereções provocadas pelas mulheres sujas e picantes que Vitor encontra pelo caminho.

Ele é quase um Bukowski – um homem imensamente auto-destrutivo que se relaciona com mulheres ainda mais baixas e sujas que ele. Sam Rockwell se destaca no papel do protagonista, com caras e bocas que emulam o jeitão malandro e dissimulado do garanhão. Seu jeito durão apesar da aparência frágil (lembrou de Clube da Luta?) nos deixa sempre na dúvida sobre quem é realmente aquele sujeito decadente.

Apesar do filme de Clark Gregg, que conta ainda com Anjelica Huston no papel da mãe de Vitor, ter uma pegada muito diferente da que o livro tem em sua narração o resultado é bom.

Sem chamar demais a atenção e com um orçamento baixo, Gregg fez bem em deixar o filme num tom mais light e fácil de se acompanhar. Caso se perdesse nas paranóias de Vitor Mancini teríamos aí mais de 3 horas de filme, na certa.

O legal é ver alguma história realmente original repercutindo. Se tem uma coisa legal sobre Chuck Palahniuk é que ele constrói personagens deliciosamente humanos – cheios de falhas, algumas gravíssimas, mas também possuidores de imensas virtudes nos momentos em que isso lhe é propício.

Uma cena ainda me intriga: como é que dá pra se engasgar com ketchup puro?

Uma cena ainda me intriga: como se engasga com ketchup puro?

E é essa decadência dos personagens centrais de Chuck que termina por salvar a eles e aos que eles são ligados. Mais ou menos como na vida real, as coisas acontecem de um jeito muito estranho. Um estranho que o autor gosta de explorar, brincando de um jeito sarcástico com suas crias e refletindo, mais uma vez, sobre os valores da vida moderna. Dessa vez é o amor e seu chatíssimo formato politicamente correto.

Como a produção alcança essa sacada no filme, então tá valendo. Mas não vá com tanta sede ao pote. Faça uma pipoca, chame uma garota bem fácil e se entretenha. Na manhã seguinte você vai correr pra livraria. Isso tudo com “Reckoner” na cabeça.

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O sarcasmo opinativo

Publicado em Comentando por Caiopro em 07/10/2009

Oscar Maroni tenta nos vender um estilo de vida, mas uma imagem vale mais do que mil migués mentirosas

Oscar Maroni pagando de Narcisa - além de pegar mal, não engana ninguém

Oscar Maroni pagando de Narcisa - além de pegar mal, não engana ninguém

O fotógrafo sempre tem uma escolha. Por que partir para o óbvio e fotografar Oscar Maroni entre putas e homens de preto? Afinal essa é a imagem que já temos dele– um sujeito que polêmico, talvez de caráter um pouco duvidoso pelo que a matéria da revista Vice dá até a entender, que agora aponta para a política com seu jeitão escrachado e fora-da-lei.

Laura Wrona fez uma escolha muito legal. Quem imaginaria o “Larry Flynt brasileiro” numa ambiente de decoração clássica, em uma pose bem Narcisa Tamborideguy junto com seu fofinho cãozinho de madame no colo?

Assim, fugindo da ‘preguiça jornalística’, a revista Vice brinca com a nossa percepção de uma figura pública de um jeito um tanto quanto bizarro.

Relações com a semiótica de Peirce podem ser traçadas a partir do seu estudo de símbolos. O retrato de Oscar junto de um cachorrinho nos desperta alguma relação simbólica – associamos imediatamente a uma figura feminina ou de posição de prestígio social, em contradição com fama de pervertido que Maroni carrega em sua reputação.

É símbolo porque são pequenos elementos, como o cachorrinho de madame, que nos tiram a atenção e nos fazem logo associar a imagem de Maroni a uma idéia lugar-comum de bom gosto, boa ídole talvez, um arquétipo muito diferente da que normalmente temos dele.

Se desconhecêssemos seu perfil de bad boy, que não é exatamente contestado, mas sim mitificado na entrevista, poderíamos até nos enganar e pensa tratar de alguém mais respeitável (como todo o respeito ao empresário).

Nessa sacada de fugir daquilo que seria óbvio demais retratar em Oscar Maroni, tão envolvido com escândalos envolvendo dinheiro e mulheres, a fotografia carrega a matéria e lhe dá a opção de visualizar o retrato que o texto tenta passar desse figurão e mais, sutilmente questionar o perfil que ele tenta nos vender.

Desperta a contradição com o contexto de um homem que é considerado por muitos como um criminoso, em um retrato simbólico pincelado pelo sarcasmo. Ali está também o que símbolo nenhum pode disfarçar, que é a cara de Maroni – esse sorrisinho maroto, de quem tenta sair por cima e te passar a perna.

Fotografias como essa podem nos enganar ou nos fazer pensar. Ou melhor ainda, captar o senso de humor negro envolvido em sua candidatura a vereador.

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Esta é uma análise semiótica que escrevi pra aula da professora Simonetta Perischetti, da Cásper Líbero. A matéria completa onde se encontra a foto de Maroni está na edição 0 da revista Vice – que eu recomendo por sinal. Entra e lê tudo em www.viceland.com.br/

O Antihype (?!) – Resenha de ‘Anticristo’ de Lars v. Trier

Publicado em Cinema, Resenhas por Caiopro em 03/10/2009

Lars Von Trier tira sarro do espectador e se recusa a justificar o ‘mal’ – em uma história sobre a culpa, que instiga do nojo a misoginia ‘gratuita’, dizem por aí..

Poucos diretores podem se gabar do impacto que conseguem com seus filmes. São os verdadeiros artistas, aqueles que ao invés de passar a mão na cabeça do espectador o provocam e ultrajam. Lars Von Trier faz disso sua marca registrada desde Dogville, quando escolheu simplesmente abolir o cenário. É um reacionário mesmo, que faz por escolha própria, a ofensa de quebrar as regras de como se monta um filme.

"..become the green"

"..become the green"

Se o forte do cineasta dinamarquês é suscitar ânimos, talvez Anticristo seja seu caso mais extremo de megalomania. Ou então de pura piada com si mesmo. Difícil é definir numa única exibição se você ama ou odeia o filme. Especialmente depois que uma raposa infanticida olha para a câmera e urra “o caos reina”.

Em Cannes, que premiou Charlotte Gainsbourg como melhor atriz a exemplo de Nicole Kidman em Dogville, houve até mesmo risadas para esta cena. E são vários os momentos em que o filme lhe desafia a continuar assistindo – o que já começa na agoniante porém bela cena de prólogo, onde a criança caminha para a morte embalada por trechos de “Rinaldo”, ópera de Handel.

Os cortes são mesmo o forte de Von Trier, que aqui alternam uma leveza e doçura na morte de uma criança de 2 anos (!) a cenas de penetração explicita entre Willem Dafoe (o marido) e Charlotte Gainsbourg (a esposa).

Personagens sem nome, eles lutam para passar por um dificílimo período de luto. A mulher tem padrões violentos de comportamento depressivo – numa tristeza extrema que culmina até ela bater diversas vezes com a cabeça contra os azulejos do mesmo banheiro onde transavam enquanto o pequeno Nick perambulava pela casa.

Charlotte Anticristo

A personagem de Charlotte Gainsbourg remói culpas e a atriz topa tudo - de sexo explícito a cabeçadas no vaso sanitário

A culpa consome a personagem e ela já não tem o controle de suas próprias ações. Sofrendo ao ver sua mulher naquele estado e tomado pelo orgulho masculino, o marido, psicanalista, resolve tratá-la sozinho. Confrontarão os seus medos e irão até a floresta do Éden – que nada tem de paradisíaco.

Enquanto o marido sem nome tenta ajudar a esposa ele também a empurra mais profundamente nos estágios de seu luto, de padrões extremos e reações violentas. São momentos de agonia que sempre culminam no ato sexual, cada vez mais cheios de requintes de crueldade e sofrimento.

Se a cena de abertura retrata o sexo com beleza o mesmo não irá se repetir no restante da película. Cada vez mais o ato é repugnante, cada vez mais brutal.

Vale a pena alertar para as cenas bizarras que envolvem nudez total e masoquismo puro – como quando a mulher, já no seu estado mais alucinado, ataca o marido para rapidamente trocar de idéia e passar a transar com ele. Rapidamente ela se sente novamente insegura que ele vá deixá-la, então arremessa um pedaço de madeira em seu pênis. Arrependida ela o masturba, então ele, desmaiado, ejacula sangue. Acredite, piora depois.

Um dos motivos que causaram ultraje em boa parte da critica foi o teor altamente misógino que o filme dá a deixa. A personagem de Gainsbourg é uma estudiosa que, no verão anterior a morte do filho, estudava sobre as torturas cometidas contra mulheres durante a Inquisição.

O sexo é sujo, é brutal. Isso para Lars von Trier, sick twisted fuck..

O sexo é sujo, é brutal. Isso para Lars von Trier, sick twisted fuck..

Isso tudo acontecera enquanto ela estava sozinha com seu filho, isolada com sua tese ali naquela mesma cabana na floresta do Éden. Estranha como é a mata, algo ali a influencia a perceber (ou acreditar) no poder da natureza e a sua feminilidade no pecado e na morte. Para a esposa, a natureza é a Igreja de Satã. É muito mais do que o verde, é a natureza humana – a qual é muito mais forte nas mulheres, origem de todo o pecado.

As seqüencias pintadas por Lars vão do belo ao brutal, como já dito. São passagens que muitas vezes parecem mais com pinturas, remetendo ao cinema de arte francês. São também essenciais para a construção da atmosfera, enquanto a mulher encara a terapia e delira em seu subconsciente já nos apresentando elementos da floresta.

"where are you!? you bastard!!"

"where are you!? you bastard!!"

A forma como o cineasta lida com os pequenos detalhes também é notável. Nada passa desapercebido e pequenos fragmentos que pareciam sem importância no início da história vão dando grande sentido a toda a loucura da mulher, apresentando também um histórico e os sinais místicos deste terror psicológico.

Recheado de passagens com referencias bíblicas e de misticismo, Anticristo se propõe mesmo é a tocar em assuntos tabu de briga de sexos. Vai ver ele tomou um baita pé na bunda antes de fazê-lo, ta ai uma boa justificativa para o filme – muitos críticos exigiram isso dele, que se recusou a explicar.

Na verdade é muito mais uma historia de loucura mesmo, mas que pontua a relação homem x mulher do ponto de vista não da natureza, como é encarado pela mulher, mas sim dos arquétipos. Foram estes arquétipos medievais de maldade que a influenciaram, será? Será que o homem é o salvador da mulher, quem lhe dá algum equilíbrio?

O final do filme não é nada conclusivo, por que este escandinavo se espelha justamente no mais controverso dos escandinavos do cinema – Ingmar Bergman. Há muito de “Cenas de um Casamento” aí, a dinâmica de um relacionamento conturbado.. isolados numa floresta estranha.

Há também uma bela relação com “Repulsa ao Sexo”, de Roman Polanski, no ritmo sexual da protagonista. Por vezes o ritmo de câmera lembra até mesmo os filmes mais novos de horror, tipo “Bruxa de Blair” – sinuosamente balançando a câmera de um lado pro outro, em especial nas cenas mais brutais.

Ame ou odeie ou os dois: 'Anticristo' é um clássico instantâneo

Ame ou odeie ou os dois: 'Anticristo' é um clássico instantâneo

Mas o verdadeiro mérito de Anticristo não é misturar técnicas, como irão dizer no futuro – quando entenderem melhor – os críticos do bonequinho da Folha, que deu apenas uma estrela ao filme. Nem é dar o primeiro papel de não-monstro ao Willem Defoe (pausa para uma piada). É sim fazer o que quase ninguém consegue na sétima arte destes anos 00 – te deixar na dúvida se gostou ou não, com um filme na cabeça durante dias para apenas no final você perceber que das duas, uma: ou você ama odiá-lo ou você odeia amá-lo. Envergonhe-se e orgulhe-se de conseguir ver até o final.

Ibra, Cristina, Barcelona

Publicado em Cinema, Comentando, Futebol por Caiopro em 30/09/2009

Ninguém duvida do nível de excelência futebolística de Ibrahimovic e, antes de fazer diferença em campo, a torcida catalã já declara bravatas de amor e mostra como se faz alguém se sentir em casa

Ibrahimovic é o tipo de jogador como Cruyff ou Litmanen, único na história de seu país. É de longe o maior craque que já surgiu nas terras frias, entrecortadas por fiordes, da Suécia. Dono de um chute potente e autor de escoradas de bola dignas dos anos de ouro do futebol de Pelé, ele já é um novo caso de amor para a torcida do Barça. Se antes pegavam no pé do sempre machucado Eto’o, o sueco é aplaudido a cada tentativa, o que o estimula a tentar novos dribles e encobrir goleiros adiantados.

Ibrahimovic, apenas mais um puta jogador de um país zé-ninguém a brilhar no maior clube de futebol do mundo

Ibrahimovic, apenas mais um puta jogador de um país zé-ninguém a brilhar no maior clube de futebol do mundo

Alto e de grande força física, é difícil parar o sueco filho de croatas sem marcar falta. Cheio de categoria, ele sabe muito bem como chamar a marcação para si, abrindo espaços. Coisa de jogadores inteligentes, que entendem a mecânica do futebol e a usam o medo das zagas adversárias a seu favor.

Dizem que em time que tá ganhando não se mexe. Bom, se mexer tem que ser com qualidade. Qualidade talvez seja o nome do meio de Zlatan Ibrahimovic, recém contratado pelo campeão europeu, FC Barcelona.

Após um frustrante zero a zero na primeira rodada da Champions League contra seu ex-time, a Internazionale, Ibra (como é chamado pelos torcedores) teve participação marcante hoje no Camp Nou.

Reeditando aquele famoso confronto de 1999, em que o então jovem Shevchenko trucidou com o Barça num sonoro 4 a zero, Dínamo de Kiev e Barcelona fizeram uma partida de futebol bem jogada, de vários lances agudos e forte dedicação tática por parte dos ucranianos.

Dessa vez deu Barcelona, 2 a zero em um jogo disputadíssimo, mas que sempre teve a cara de Barcelona apesar dos esforços de contra-ataque de Milesvski principalmente. Shevchenko esteve apagado como já está há alguns anos desde sua saída do Milan.

Em time que está ganhando realmente não se mexe, por isso o Barça deste ano é tão parecido com o do ano passado. A única modificação significante é Ibra no lugar de Eto’o, que foi trocado por ele com a Internazionale. É impressionante como os times campeões do Barcelona jogam parecido entre si – segurar a bola e o toque envolvente são características do clube em si, uma escola muito única no futebol mundial. Se fosse qualquer time do mundo, os passes curtos irritariam a torcida, mas no Barcelona isso é parte do espetáculo que incentiva a torcida a gritar ainda mais.

Zlatan parece já ter chegado adaptado a essa escola. Se antes tinha o peso de uma equipe inteira em suas costas, o faixa preta de tae kwon-do hoje divide com craques como Messi (autor do primeiro gol) e Xavi a responsabilidade de trazer a campo um time que, além de esmagar os adversários com envolvente jogo tático de posse de bola, cumpre a promessa de jogar bonito. Ele já parece parte desse time há bem mais tempo do que tem de fato e provoca desde já comparações com Rivaldo e outros grandes jogadores campeões do time azul-grená.

No jogo de hoje, Ibrahimovic não brilhou, mas foi sempre carregado e incentivado pela torcida em cada lance. Quase marcou um belo gol de cabeçada direto ao chão (aqueles lances que enganam os goleiros mais jovens) na pequena área logo no início do segundo tempo, após cruzamento de Messi. Já havia tentado, sem sucesso, encobrir e até driblar o experiente goleiro Shovkovskyi.

Não marcou mas fez a bela jogada que resultou no segundo gol catalão, marcado por Pedrito após lindo passe em diagonal de Ibra por trás da zaga adversária.

O sueco agora divide a responsabilidade com um time completo, favorito ao título, e tem a oportunidade de sua vida trabalhando no que talvez seja o clube mais importante do futebol internacional. Seja pela sua história ou pela sua marca registrada de jogo bonito e casa de craques como Cruyff, Maradona ou Romário.

Ele quer se tornar um deles e a torcida barcelonense já anseia por carregá-lo no colo e declarar um novo e, como é tradição catalã, apaixonado amor.

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Desse texto, que fiz pra aula do Celso Unzelte, prof. de Jornalismo da Cásper e parte do time da ESPN Brasil, eu não gostei tanto. A idéia me pareceu bem louca, mas faltou alguma coisa.. Num futuro próximo talvez eu a reescreva ou edite aqui no post mesmo.

Resenha de ‘O Anticristo’ (F. Nietzsche)

Publicado em Resenhas por Caiopro em 29/09/2009

Fiz essa resenha pra aula de Filosofia da Comunicação, mas acho que o professor não gostou muito – ele transa com um exemplar de Assim Falou Zaratustra afinal. Azar dele, eu curti ter escrito desse jeito.

QUANDO NIETZSCHE RECLAMOU

Livro de cabeceira de três em cada cinco postulantes a intelectual, O Anticristo é a critica mais ácida de Friedrich Nietzsche ao cristianismo. Muito mais do que isso, o ensaio, tido como niilista, é talvez a obra mais mal utilizada do filósofo alemão.

Quando Nietzsche vociferou contra a ordem em que se organizou a filosofia cristã, ele também se rebelou contra Deus. Bom, não contra Deus mesmo – porque por mais que os ateus gostem de afirmar o contrário, Nietzsche nunca foi deles. Pelo contrário, Nietzsche se espelhou em Schopenhauer ao se aproximar do budismo, esta sim uma filosofia de fato.

Aqui temos Nietzsche pagando de militar

Aqui temos Nietzsche pagando de militar

As acusações feitas a Pedro e a Martinho Lutero, para citar os dois exemplos principais do livro, são de ordem burocrática. O alemão odeia o formato adotado pela Igreja, que para ele transforma o homem Jesus Cristo em um mito ignorante e injusto para com, ora quem mais, ele próprio Jesus. “O único cristão morreu na cruz” é regurgitado num determinado momento do livro. É contra as falsas promessas e punições de um Além que Nietzsche se revolta duramente – aqui se vive, aqui se paga.

Da mesma revolta nascem os argumentos falhos da maioria dos ateístas, que mais parecem saídos dos esquemas de dialética erística de Schopenhauer. São aqueles céticos que fazem disso uma doutrina, diga-se de passagem, cheia de rancor, mas que é furada.

Se a loucura está do outro lado de uma fina linha vermelha, que a separa da genialidade, a citação de prefácio do livro vem a calhar: “este livro pertence aos homens mais raros. Talvez nenhum deles sequer esteja vivo (…) alguns homens já nascem póstumos”. Não surpreendentemente O Anticristo foi escrito já numa fase próxima da loucura que tomou esse que é um dos mais sagazes escritores germânicos.

Nietzsche ainda estava, sim, no lado de cá da linha vermelha mas era por pouco. E se a genialidade fica tão perto da loucura talvez a loucura faça parte dela. Nietzsche é figura marcante na história do pensamento ocidental muito por que sua loucura é mais compreendida que a genialidade, servindo de argumento furado até mesmo para o nazismo. Esse livro é para os poucos que conseguem enxergar além da postura de homem de pedra do homem Nietzsche.

Infelizmente para a filosofia alemã, que sempre andou tão pra baixo, a imagem de Nietzsche acabou fazendo mais sucesso nesse mundo de ícones que vivemos. Bom, talvez Anticristo tenha sido o primeiro passo para tornar Jesus um ídolo pop, isso ao tirar sarro de verdade pela primeira vez.

Aqui um jovial Friedrich faz cosplay de Dorian Gray

Aqui um jovial Friedrich faz cosplay de Dorian Gray

Mas se você quer saber da verdade, Anticristo é uma das mais bem escritas compilações de pensamentos da vida de Nietzsche. Basta olhar além do sarcasmo e da fúria e esquecer esse lado emo, bem deprê e cheio de marra, que perdurou em toda Europa do século XIX.

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